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O Ataque | Crítica

Roland Emmerich emula Duro de Matar para nos lembrar da beleza do cinema de ação cafona e escapista

Marcelo Hessel
05.09.2013
19h33
Atualizada em
29.06.2018
02h27
Atualizada em 29.06.2018 às 02h27

Na cena que abre O Ataque (White House Down), uma menina que mora com a mãe solteira em Washington é acordada em seu quarto pelo barulho dos helicópteros presidenciais a caminho da Casa Branca. A garota olha encantada pela janela, como se os helicópteros fossem ainda parte de um sonho. É o primeiro indício de que O Ataque tem muito de delírio adolescente, de fabulação.

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Quando o presidente dos EUA, James Swayer (Jamie Foxx), pede dentro do helicóptero que o piloto faça um trajeto especial até a residência oficial, passando pelo famoso espelho d'água diante do Memorial Lincoln, a coisa fica mais clara: é como se entrássemos não num filme de ação mas antes num passeio de parque de diversões, com toda a carga que isso implica.

Logo o presidente se vê refém de um ataque, e cabe ao pai daquela menina, John Cale (Channing Tatum), que por um acaso está na Casa Branca no momento da invasão, salvar o dia por conta própria. Embora Duro de Matar seja evocado da premissa um-contra-todos e do espaço fechado à subtrama familiar e à regata branca usada por Tatum, idêntica à de Bruce Willis, logo esquecemos que o filme é basicamente uma repetição de uma fórmula, porque, mais do que isso, O Ataque se revela uma carta de intenções do diretor Roland Emmerich.

E o negócio de Emmerich, conhecido por seus filmes-catástrofe que fazem do fim do mundo um parque temático, é justamente o escapismo. Se hoje o mundo é destruído em filmes como Transformers 3 e O Homem de Aço com toda a gravidade do "realismo", o cineasta alemão resgata o caráter inofensivo dos primeiros filmes-desastres dos anos 70. Nos longas de Emmerich, as hecatombes nunca perdem o fator do exagero e, por consequência, do ridículo - o que é vital para efetivar o escapismo.

E em O Ataque o que não falta é exagero, de perseguições de limusine ao bom e velho (e hoje quase paródico) perigo nuclear, passando por uma figura vilanesca de peso, daquelas que Hollywood desaprendeu a fazer depois dos anos 90 (e que prazer ver James Woods em cena). Chroma key e efeitos baratos ficam evidentes em algumas cenas mais artificiais, como que pensados para demarcar o faz-de-conta.

Emmerich se atualiza no formato - o filme inequivocamente se passa nos dias de hoje, com a tecnologia de celulares e a Internet pensados para gravar e transmitir toda e qualquer explosão, para não privar ninguém do espetáculo - mas o espírito é aquele de quem cresceu com a era dos blockbusters e provavelmente entrou no ramo do cinema de ação só para explodir maquetes com o dinheiro dos outros.

Não há nada que não possa ser destruído e reconstruído depois; essa descartabilidade das coisas, defendida entre uma explosão e outra por Emmerich como se fosse uma filosofia de vida, vira até piada interna em O Ataque, quando o guia da Casa Branca lembra que o próprio Emmerich dizimou a residência do presidente em Independence Day, uma das vezes que a Casa Branca foi ao chão na ficção ou na realidade.

"Vão-se os objetos, mas as pessoas ficam" é o lema meio cafona que ajuda O Ataque a não ser só um manifesto pró-escapismo e uma brincadeira pirotécnica de metalinguagem. Ao contrário de filmes seus com personagens absolutamente desinteressantes, como 2012, aqui Emmerich, apoiado no roteiro de James Vanderbilt, leva um tempo para estabelecer subtramas que servem para criar empatia com os protagonistas. A regra de ouro nos blockbusters/parques temáticos - expor o espectador a cenas de ação regulares e cronometradas desde o começo, para não perder o interesse entre uma "atração" e outra - é revogada em O Ataque em nome da narrativa.

Obviamente, no fim, esses personagens a quem nos ligamos de início sempre vão testar a paciência do público com frases de efeito engraçadinhas em momentos inoportunos, mas isso se perdoa - o blockbuster de ação é um gênero feito todo de cafonices e infantilidades, afinal, e precisou vir Roland Emmerich, o nosso Walt Disney, nos lembrar dessa importante lição.

O Ataque | Cinemas e horários

O Ataque
White House Down
O Ataque
White House Down

Ano: 2013

País: EUA

Classificação: 14 anos

Duração: 137 min

Direção: Roland Emmerich

Roteiro: James Vanderbilt

Elenco: Channing Tatum, Jamie Foxx, Joey King, Maggie Gyllenhaal, Richard Jenkins, James Woods, Nicolas Wright, Jimmi Simpson, Michael Murphy, Rachelle Lefevre, Lance Reddick, Matt Craven, Jake Weber, Peter Jacobson, Jason Clarke, Kevin Rankin, Garcelle Beauvais, Falk Hentschel, Romano Orzari, Jackie Geary, Andrew Simms

Nota do Crítico
Ótimo

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