O Animal Cordial

Créditos da imagem: Reprodução/RT Features

Filmes

Crítica

O Animal Cordial

Arrojado terror nacional se sustenta em boas referências do slasher movie e do giallo

Marcelo Hessel
06.08.2018
14h34
Atualizada em
09.08.2018
12h56
Atualizada em 09.08.2018 às 12h56

Não é simples o desafio a que O Animal Cordial se propõe, que é não apenas fazer um terror-de-maníaco num único cenário, mas também dar consistência a meia-dúzia de personagens-tipos, numa trama que rapidamente começa a eliminá-los, seguindo as regras do slasher movie. O ambiente é um restaurante meio falido, num local isolado, que recentemente passou por um assalto e agora está vivenciando outro - para azar de clientes, funcionários e dos próprios ladrões. O assalto não sai como se espera, ao longo de uma madrugada sangrenta.

Essa questão da consistência é central, porque no filme da diretora Gabriela Amaral Almeida os personagens encarnam não apenas perfis morais e étnicos mas também de classe - ao contrário do cinema americano, onde o tema incômodo do classismo foi sendo minimizado ao mesmo tempo em que esse subgênero se popularizou, no fim dos anos 1970 e no começo dos 80.

Ou seja, o que temos aqui são personagens definidos por pulsões sexuais e questões de gênero e raça (é fácil pensar nos slasher movies hollywoodianos em que os casais transantes e as minorias étnicas são alvos primeiros dos maníacos) mas também por estratos sociais numa realidade do Brasil em que vemos inflamada essa divisão. O país de 2018 é o país do cada um por si, e esse mal-estar paira sobre O Animal Cordial do começo ao fim. A questão da consistência é importante porque seria fácil cair, a partir dessa premissa, num filme de proselitismo, engessado em discursos sobre rancores de classe.

A diretora consegue se esquivar desse perigo, principalmente a partir do referencial que carrega consigo: um mestrado em cinema de horror, especialização em Stephen King, gosto pelo giallo italiano. A influência de King não é tão facilmente reconhecível em O Animal Cordial, embora o mal-estar social sentido no filme não seja tão diferente daquele de O Nevoeiro. Já o giallo é latente: está na trilha sonora que mescla órgãos e sintetizadores, na arquitetura claustrofóbica do restaurante como um pesadelo quase expressionista, está na obsessão por espelhos, cores fortes, e principalmente na carne: tudo é sexo em O Animal Cordial, mesmo antes de uma disputa fálica de revólveres engatilhar a espiral de morte.

O domínio das referências, assim como o impulso de operar dentro de convenções do giallo e do slasher, ajuda O Animal Cordial a evitar a armadilha discursiva citada acima. O que temos aqui é um trabalho forte de gênero que não precisa tanto transformar questões sociais em texto para pontuá-las. Um exemplo marcante é a contraposição de gestos de Inácio (Murilo Benício), dono do restaurante, e Djair (Irandhir Santos), o cozinheiro. Ambos lambem os dedos em momentos distintos, um gesto bem afeito ao erotismo dos gialli. Inácio, porém, o faz num ato perverso, enquanto Djair lambe a mão num contexto de amor-próprio. É o que basta para atribuir a esses dois momentos um caráter político.

Se Almeida domina suas referências e sabe retrabalhá-las, ao mesmo tempo O Animal Cordial parece muito consciente das regras dos gêneros a que se alinha. Nessa chave cerebral, mostra-se controlado, indisposto a levar sua proposta ao limite do esgarçamento e do seu potencial - qual seja, como a manifestação visual de um estado violento de transe. Quando Eu Era Vivo, terror de possessão que a diretora coescreveu com Marco Dutra, terminava com um sentimento de frustração semelhante. Na época do lançamento de A Colina Escarlate, falou-se que Guillermo Del Toro foi incapaz de fazer um grande filme de horror justamente por ter uma relação afetiva profunda com o gênero, respeitosa e reverencial. Com O Animal Cordial acontece o mesmo?

A questão fica no ar, e o filme parece ter um pudor com as cenas de violência que não tem com o sexo: a cena da transa é o momento mais forte, nos gestos, na estética, nas formas.

No fim, é possível entender esse pudor como uma autocontenção, e o potencial incompleto fermenta em si mesmo. Almeida transforma a aversão ao gore (como todas as facadas dadas só no extracampo ou a elipse no clímax que nega ao espectador uma catarse esperada de vingança) numa vantagem sua: seu filme alimenta o descontentamento e não deixa os atos dos protagonistas se transformarem em válvulas de escape de sadismo para o público. Nesse sentido, O Animal Cordial é o anti-torture porn, e o resultado enervante dessas escolhas talvez tornem o filme mais potente ainda nos dias de hoje, dias de um generalizado sentimento passivo-agressivo de paralisia e inação.

Nota do Crítico
Ótimo