O Amigo da Família | Crítica
O amigo da família - 30a. Mostra Internacional de Cinema
![]() |
||
|
||
![]() |
||
![]() |
||
![]() |
Desde a morte do excelente cineasta Federico Fellini, a Itália ainda não conseguiu apontar um sucessor. É bem provável que não consiga. Sabe como é, não é todo dia que surge um Pelé. Mas desde o seu primeiro longa-metragem, Le conseguenze dellamore (2004), o jovem diretor napolitano Paolo Sorrentino vem provocando frisson nos festivais europeus.
Se na sua estréia ele concorreu à Palma de Ouro, este ano ele voltou a Cannes para mostrar O amigo da família (LAmico di famiglia, 2006), película que foi ovacionada na Riviera francesa. A produção é mais elusiva que seu primeiro filme, mas mantém as mesmas qualidades: personagens presos num ambiente surreal, ligeiramente cercados por situações estapafúrdias.
Geremia de Geremei tem 70 anos de idade. É feio, sujo, rico, pão-duro, cínico e irônico. Acompanhamos alguns dias de sua vida e das pessoas que o cercam. Ele tem o apelido de Geremia coração de ouro, pois sempre empresta dinheiro para os pobres ou pessoas que estão em situações desesperadoras. Ele ainda mora com sua mãe, que o ensinou a sempre emprestar pequenas quantidades. Mas o seu verdadeiro prazer reside em ver seus devedores chegarem ao fundo do poço. Ele disfarça seu negócio de agiotagem sendo proprietário de uma alfaiataria. Tudo que o cerca é fruto de relações doentias e obsessivas: sua mãe, seu pai, dinheiro e mulheres. É por isso que ele acha que está sozinho.
Mas mesmo sendo um sanguessuga, Geremia está à procura de uma noiva. Nesse momento surge Rosalba, uma mulher linda e prestes a se casar. Seus pais procuram Geremia para financiar o matrimônio. No dia das bodas, ele oferece uma redução nos juros, se ela deixá-lo tocá-la. Sim, Geremia é asqueroso.
E Paolo Sorrentino faz questão de não criar nenhum tipo de simpatia pelos outros personagens também. Com essa acertada escolha fica mais fácil para o público aceitar as ações de todos os outros envolvidos na trama. A intenção de Paolo é mostrar que numa sociedade real não existem pessoas inteiramente boas ou más.
O ator Giacomo Rizzo realiza um trabalho soberbo no papel de Geremia. Vemos nele uma espécie de Shylock (o agiota do Mercador de Veneza, de Shakespeare) humorístico que sustenta o excêntrico roteiro escrito por Paolo. Vale dizer que Giacomo é uma estrela local do teatro humorístico de Nápoles que até então só tinha feito pequenas participações no cinema, como em 1900, de Bernardo Bertolucci. Laura Chiatti, no papel de Rosalba, também se destaca. No principio, ela parece uma mulher de beleza estonteante presa numa situação desconfortável. Conforme o filme vai seguindo, outras nuances vão se revelando. Ver Geremia e Rosalba no mesmo fotograma é um choque visual, algo próximo à relação entre Quasímodo e Esmeralda, em O Corcunda de Notre Dame.
Tecnicamente o filme é um banquete visual. As cenas são filmadas nos ângulos mais esquisitos possíveis, complementando o argumento esdrúxulo. A câmera de Paolo é uma perfeita aula de linguagem cinematográfica. Ela sempre explora algo novo e está em constante movimento. A fotografia de Luca Bigazzi completa com perfeição o universo criado por Paolo. Ter escolhido filmar na região de Agro Pontina enriquece a proposta por sua impressionante arquitetura fascista envolta por praias desérticas. Tudo isso embalado numa trilha sonora que mistura música clássica e rock pesado.
Todo esse apuro no estilo e na técnica nunca é gratuito. Eles estão a serviço de uma parábola sobre feiúra e beleza, medo e desejo, atração e repulsa, e poder e necessidade. Depois de uma estréia elegante e minimalista, o cineasta Paolo Sorrentino parte para um tributo maximalista à fealdade em O amigo da família. Com certeza um nome a se guardar.
O Amigo da Família
L'Amico Di' Famiglia
Excluir comentário
Confirmar a exclusão do comentário?




Comentários (0)
Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.
Faça login no Omelete e participe dos comentários