Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre grita alto com poucas palavras

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Crítica

Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre grita alto com poucas palavras

História de aborto realiza a difícil tarefa de traduzir para as telas o peso de uma escolha e as sutilezas do companheirismo

Julia Sabbaga
05.02.2021
13h54
Atualizada em
05.02.2021
14h39
Atualizada em 05.02.2021 às 14h39

Existe um poder muito grande em um filme que fala alto com poucas palavras. Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre, novo trabalho da diretora e roteirista Eliza Hittman, sabe usar o silêncio como poucos. Contando a história de uma jovem da Pensilvânia que viaja para Nova York para realizar um aborto, o filme tinha nas mãos diversos elementos que poderiam torná-lo clichê: um tema delicado, uma protagonista adolescente, deslocada na cidade grande. Mas Hittman tem uma habilidade admirável para transmitir sentimentos por meio de uma troca de olhares, um foco de câmera, ou o prolongamento de uma cena. Suas escolhas transformam uma história de maturidade em um conto tocante sobre o peso de uma escolha e a solidariedade acima de amizade. 

A sutileza da diretora está presente em cada uma das sequências. Logo no início, quando Autumn - vivida pela extraordinária estreante Sidney Flanigan -  confirma sua gravidez em uma clínica, ela volta para casa e esteriliza uma agulha. Ela prepara um balde de gelo. Ela para na frente do espelho e faz um piercing no nariz. Não é preciso verbalizar nada. É muito mais poético deixar a protagonista sozinha e demonstrar delicadamente sua necessidade de recuperar o controle e de expressar vontade própria em pequenos atos de independência.

Hittman sabe no que focar, por quanto tempo, e como construir uma atmosfera opressora sem precisar lidar com Nova York do modo traiçoeiro tradicional. Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre desvia do pecado comum de dar aos jovens um discurso pseudo adolescente que sempre desliza na visão que adultos têm do jovem. Ao manter suas protagonistas em silêncio, ele cria uma aliança forte e ao mesmo tempo sutil. 

A aliança se dá entre Autumn e a prima Skylar (Talia Ryder), que a acompanha na jornada. Juntas, elas vivenciam situações familiares para qualquer mulher em um cenário desconhecido. As invasões masculinas são constantes e as cercam mesmo na rotina pacata da cidade em que vivem, mas Hittman sabe retratar diferentes violações de diferentes modos. O chefe de Autumn e Skylar é um assediador habitual, com o qual as duas já estão acostumadas. Na Big Apple, o abuso é outro, mais amedrontador e sua trivialidade é seu aspecto mais brutal.  

Apesar de deixar muito no não falado, Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre mostra um comprometimento perfeito com a realidade quando se trata das clínicas pelas quais Autumn e Skylar passam. Na cena mais cortante do filme, da qual a produção tira seu título, nossa protagonista recebe as quatro alternativas em um questionário de múltipla escolha. A sequência, que confia muito bem no poder da atuação de Flanigan para evidenciar a vulnerabilidade do momento, também é admirável na escalação de uma assistente social real para contracenar com a protagonista. A cena, ponto alto do filme de Hittman, é devastadora.

Existem dois outros momentos que representam perfeitamente a temática de Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre: dois focos íntimos em apertos de mãos. Entre amigas ou desconhecidas, a solidariedade feminina é central para a mensagem da diretora, e está acima de amizades ou relações familiares. Mesmo assim, Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre, é um filme obrigatório para qualquer um, independente de gênero. Assim como A Assistente fez nesta temporada de premiações, o longa de Hittman soube evidenciar o mundo feminino de modo universal, sem apelações e com muita sutileza.

Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre
Never Rarely Sometimes Always
Nunca, Raramente, Às Vezes, Sempre
Never Rarely Sometimes Always

Direção: Eliza Hittman

Elenco: Sidney Flanigan, Talia Ryder

Nota do Crítico
Ótimo

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