Nova adaptação de Ligações Perigosas agoniza em sua própria irrelevância

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Crítica

Nova adaptação de Ligações Perigosas agoniza em sua própria irrelevância

Estrelado pela influencer Paola Locatelli, o longa francês persegue a modernidade sendo maniqueísta, superficial e cafona.

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
09.07.2022, às 14H01
ATUALIZADA EM 09.07.2022, ÀS 14H14
ATUALIZADA EM 09.07.2022, ÀS 14H14

Não é difícil entender as fraquezas de Ligações Perigosas se usarmos como exemplo uma inacreditável sequência que se apresenta ao público na reta final: dentro da história, uma peça está sendo montada (provavelmente numa tentativa da diretora de “homenagear” o clássico) e ela é o catalisador de toda a ação final. Em dado momento, a peça termina e todos os atores estão no palco, agradecendo. Então, uma mensagem é enviada para os alunos da escola e os celulares de absolutamente todos os membros do elenco apitam. Ali, agradecendo, com os figurinos, eles enfiam as mãos nos bolsos e conferem a mensagem, na frente da plateia, como se atores levassem celulares para a cena e tivessem a cara-de-pau de conferir o WhatsApp no meio dos aplausos.

É disso que a roteirista e diretora iniciante Rachel Suissa está tentando nos convencer. Para ela, refazer os caminhos do clássico de Pierre Choderlos de Laclos é necessário em pleno 2022, quando o dinheiro que move os personagens lá nas páginas do passado, é substituído pela necessidade de popularidade nas redes sociais. Contudo, Rachel não se pergunta, em momento algum, se a história de Ligações Perigosas não é enfraquecida justamente pela modernidade. A história da menina inocente que cai numa aposta de ricos mimados parece fazer sentido numa época em que as informações tinham muito mais dificuldade para se propagar. Conseguir esse efeito agora é mais discutível.

Alguns de vocês podem se lembrar de Segundas Intenções (1999), uma peça icônica da cultura pop, promovida por um elenco reconhecido de séries de TV em papéis muito diferentes daqueles que os tornaram famosos, por uma linguagem cínica e um texto afiado. O diretor Roger Kumble subverteu a história de Ligações Perigosas levando-a para uma Nova York de gente entediada que só encontrava prazer nas intrigas. Enganar a pobre Annette (Reese Whiterspoon) naquele momento em que ainda não havia redes sociais e nem a opressão dos smartphones, parecia muito mais viável. O resultado disso foi um filme bem-adaptado, moderno e provocativo. A sequência final, com Kathryn (Sarah Michelle Gellar) sendo desmascarada ao som de "Bitter Sweet Symphony" é uma das mais marcantes da história do cinema teen.

A versão da diretora Rachel Suissa, entretanto, não passa nem perto de conseguir qualquer momento memorável. Dessa vez, a história é focada na chegada de Célène (Paola Locatelli) até a cidade litorânea dominada por quem posta mais e tem mais seguidores. A escolha de Paola para o papel é providencial: ela também é uma influencer. A virginal Célène se apaixona por Tristan (Simon Rérolle), sem saber que ele fez uma aposta com Vanessa (Ella Pellegrini) para arruinar com a reputação da moça. O problema surge quando Tristan realmente se apaixona por Célène e se vê diante do dilema de assumir os sentimentos ou apenas seguir o fluxo de egoísmo que regeu toda sua vida.

Ligações Inofensivas

Todas as escolhas criativas desse filme soam duvidosas. Mesmo se passando no interior da França, a direção escolhe encher o longa de referências estadunidenses, como se aquela fosse uma ensolarada Flórida, onde todos surfam e cantam hip-hop. De fato, a constrangedora tentativa de fazer pseudomusicais resulta em abominações, como o protagonista rimando e fazendo gestos do gueto, com seu look de comercial de desodorante e sua cara de protagonista da CW. Nada parece mais inapropriado e deslocado. É como se a vontade de refazer Segundas Intenções se confundisse com a vontade de emular casais-adolescentes-enxaquecas como Bella e Edward; sem a parte do brilho na luz do sol, mas com o discurso do casamento virgem.

O tempo todo, a diretora insere na edição telas de celular para que o público acesse posts e vídeos que os personagens produzem. O recurso é usado sem critério e falha miseravelmente em organicidade (vide a cena do palco citada no início do texto). Há uma tentativa capenga de abrir discussões sobre a banalização das emoções por conta do excesso de vida virtual. Mas, fica tudo pelo caminho. Rachel quer mesmo é redimir Tristan, punir Vanessa e fazer o casal se casar enquanto rolam os créditos. No meio disso tudo, nada de substância, ninguém se aprofunda em coisa nenhuma.

Essa história – que não deveria ser uma história de amor feliz – chega nos 5 minutos finais desperdiçando todas as chances de verdadeira conexão; mas tomada de uma pretensão de que está se conectando a todos os espectadores sem nenhum esforço. Afinal de contas, são jovens lindos, dizendo coisas “maneiras”, quem não ia querer segui-los? É claro que a adaptação não se preocupa em humanizar Vanessa – nesse tipo de abordagem o maniqueísmo castiga muito mais as mulheres; e tampouco tenta aprofundar seus personagens queers (aqui o que vale é o protocolo). É um desfile inconsequente de jovens grudados ao telefone, usando roupas da moda e repetindo diálogos de quem só está servindo para escorar os protagonistas. É uma narrativa vazia.

Ligações Perigosas é um equívoco criativo tão grande que deveria ser como uma postagem mal pensada da qual você se arrependeu. Apague. Esqueça.

Ligações Perigosas
Les Liaisons dangereuses
Ligações Perigosas
Les Liaisons dangereuses

Ano: 2022

País: França

Nota do Crítico
Ruim

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