Nosso Segredo traz em alegorias um relato profundo sobre luto e racismo
Longa de Grace Passô levou o prêmio máximo no Festival de Gramado 2026
Vinte anos depois de escrever, dirigir e estrelar a peça Amores Surdos, Grace Passô volta aos mesmos temas para fazer sua estreia na direção de longas-metragens. O resultado, Nosso Segredo, vencedor do Kikito de Ouro no Festival de Gramado, confirma o instinto da diretora: ela sabe exatamente o tipo de filme que quer fazer, e tem a segurança necessária para sustentá-lo até o fim.
O longa acompanha uma família negra tentando reconstruir sua rotina depois da morte do patriarca. Grace constrói um cinema sensorial, no qual cada integrante do clã tem seu próprio tom, seu próprio timbre, enquanto luta internamente contra seus próprios demônios. Todos enfrentam a mesma dor, mas cada um a vive de um jeito, e é justamente essa diferença que os afasta uns dos outros como família.
Só que a dor dessa família não vem apenas da perda. Há um segundo luto em Nosso Segredo, mais difícil de nomear, e é o do racismo que atravessa a vida de cada um daqueles personagens. A cineasta, no entanto, se recusa a transformar isso em discurso. Em vez de apontar o dedo, ela deixa o racismo operar como uma presença ambiente, quase um fantasma que já não precisa mais se anunciar porque está entranhado em tudo: no jeito como os corpos ocupam os espaços, nas ausências que pesam mais do que qualquer fala, na forma como a casa parece se desfazer junto com a família. São raros os momentos em que o filme escancara isso em palavras, quase sempre por meio de diálogos mais expositivos, e talvez esses sejam os únicos instantes em que Nosso Segredo soa redundante, como se desconfiasse da própria sutileza que constrói tão bem no resto da narrativa.
É dessa desconfiança na palavra, aliás, que nasce a maior ousadia do filme. Grace constrói uma fábula que se apoia muito mais em metáforas e imagens do que em explicações. Há sequências inteiras sem diálogo, cenas que se demoram no silêncio e no fantástico como quem confia que o espectador vai preencher os espaços vazios com sua própria dor. É uma estrutura arriscada, pouco afeita ao gosto do grande público, que costuma pedir clareza e ritmo onde aqui há apenas atmosfera e repetição controlada. Ainda assim, Nosso Segredo nunca deixa de ser sedutor. Mesmo quando resiste a explicar, o filme segura o espectador pela mão e o convida a entrar nesse universo onde o real e o fantástico deixam de ter fronteira, como se a única forma de contar essa história fosse através do sonho e da alegoria.
O filme perde força só no final, quando tenta materializar essa dor compartilhada de forma mais concreta - mesmo que a tal "materialização" também permita interpretações singulares. É uma pena, porque até ali a grande virtude de Nosso Segredo é fazer esse furacão de sentimentos ser sentido no ambiente: no vazio da casa, no apodrecimento das paredes, no silêncio que ocupa os cômodos.
Ainda que o desfecho tropece um pouco na tentativa de dar contorno físico ao que era abstrato, ele se recompõe em um final poético, que fecha o filme com a mesma delicadeza com que ele começou. Nosso Segredo é uma das melhores surpresas do cinema nacional dos últimos anos.
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