No Portal da Eternidade

Créditos da imagem: No Portal da Eternidade/CBS Films/Reprodução

Filmes

Crítica

No Portal da Eternidade

Com muita sensibilidade, longa foge do estereótipo do gênio e explora a humanidade de Van Gogh

Mariana Canhisares
08.02.2019
15h14
Atualizada em
08.02.2019
15h27
Atualizada em 08.02.2019 às 15h27

O estereótipo do gênio pressupõe que se precisa ser uma alma atormentada para deixar uma marca na história. Mas, ainda que a vida do pintor holandês Vincent van Gogh pudesse facilmente ser encaixada nessa ideia rasa, o diretor Julian Schnabel é mais cuidadoso. No filme No Portal da Eternidade, a mente e a obra do artista são de fato indissociáveis, mas a arte nunca é uma consequência da sua saúde mental, e sim um paliativo.

Para narrar os últimos dias da vida do pintor, Schnabel opta por uma abordagem mais crua e angustiante, filmando praticamente o tempo todo com a câmera na mão. Os movimentos são ora sutis, ora bruscos conforme o humor do personagem na cena. A montagem e a trilha sonora também seguem essa tendência. São muitos os cortes repentinos, que quebram o ritmo da narrativa e causam estranhamento. Mais que uma simples ousadia, porém, toda essa crueza carrega uma intenção poética: reproduzir os momentos de caos e calmaria internos de Van Gogh. Por isso, o diretor só ameniza de verdade esses recursos quando o artista está criando, como se sua visão de mundo ficasse mais clara com o pincel na mão.

Como um dos poucos elementos não-hostis, a performance de Willem Dafoe é a âncora que prende a atenção do espectador e sustenta o filme. A escalação do ator é corajosa - já que Van Gogh morreu aos 37 anos e ele tem mais de 60 -, mas perfeita. Dafoe aborda a instabilidade emocional do pintor com muita sutileza e sensibilidade, dando o peso devido às palavras do roteiro de Schnabel e Jean-Claude Carrière.

Assim, ator, diretor e roteirista não tentam arrancar lágrimas ou fazer o público sentir pena do artista. Emocionam, sim, em situações pontuais, em um gesto entre os irmãos Van Gogh ou uma conversa trivial. No fundo, colocam o espectador no lugar do protagonista. Não à toa, Schnabel explora muitas cenas também na perspectiva do próprio Van Gogh, além de deixar que os diálogos deem conta de explicar o que se precisa da automutilação e da própria genialidade das suas obras. A empatia é o fator central do longa e entender o artista enquanto ser humano é mais importante.

Nota do Crítico
Ótimo