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Pablo Larraín fecha sua trilogia sobre Pinochet questionando as ilusões do consumismo

Marcelo Hessel
27.12.2012, às 20H52
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H50
ATUALIZADA EM 21.09.2014, ÀS 14H50

"Este comercial está inserido em um contexto social. Hoje o Chile é um país que pensa no futuro", diz o publicitário René Saavedra (Gael García Bernal) antes de apresentar uma peça a seu cliente, um fabricante de refrigerante. Conhecemos o discurso, esperamos o cinismo, mas que cara-de-pau de René: o Chile neoliberal de Augusto Pinochet só pensa no agora, e não no futuro, porque afinal é o imediatismo que faz do capitalismo o que ele é.

pablo larrain

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É esse imediatismo, entre outras coisas, que Pablo Larraín discute em No, candidato chileno ao Oscar e filme que encerra a trilogia do diretor sobre a ditadura no país (Post Morten trata do golpe em 1973 e Tony Manero, do período de maior repressão, 1978). Transcorre o ano de 1988, as torturas são passado. Pressionado pelo resto do mundo, Pinochet anuncia um plebiscito para decidir se continuará no poder. A oposição - um balaio de partidos nanicos de esquerda - tem então a difícil missão de convencer o povo a dizer não para um governo totalitário que deu ao Chile estabilidade econômica.

Não fica clara no início a razão de René aceitar comandar, durante um mês, os 15 minutos diários na TV que formam a campanha do "Não". Os esquerdistas o respeitam porque René é filho de militante e viveu exilado no exterior, mas, de volta ao Chile, o publicitário visivelmente usufrui da prosperidade dos anos Pinochet: tem carro esporte, casa na praia, presenteia o filho com ferrorama, anda de skate pelas ruas como se vivesse mesmo num comercial. Falta, porém, ao solteiro René, afastado de sua mulher militante, o produto central da publicidade: uma feliz família tradicional.

Assim como o Don Draper de Mad Men, René é atacado na base da sua crença, tiram-lhe a imagem perfeita do consumismo: uma rotina sem sustos com filhos saudáveis e uma esposa contente. Ao acabar com o casamento de René, Pinochet lhe nega essa projeção de normalidade. É em busca de restabelecer essa ilusão, portanto, e não para atender a um chamado de responsabilidade social, que o protagonista se coloca a serviço do "Não". Larraín faz dele um grande anti-herói não só porque percebemos seus defeitos (como o ego na rixa contra o diretor dos comerciais) mas principalmente porque, no fundo, René acredita nas mentiras que vende.

Então faz sentido que a campanha do "Não" seja formatada como um comercial, com jingle e tudo. Mais do que isso, para dialogar com a memória visual do período, Larraín, que em 1988 tinha 12 anos, filma No inteiramente em U-Matic, tecnologia de gravação em videocassete que era usada pela publicidade na época. A imagem desfocada (às vezes parece que estamos vendo um filme 3D sem óculos), estourada no encontro com a luz, dá ao filme uma cor volúvel de sonho, como a ilusão que René tanto tenta resgatar.

Se o personagem reage entorpecido ao fim do plebiscito, não é pelo resultado exatamente, mas por presenciar a alegria - esse conceito tão abstrato - materializada diante de si. A câmera de Larraín se fixa no rosto de Bernal nesse momento, para em seguida, no plano que mostra o coletivo da campanha, pegar apenas a silhueta de René em contraluz. Dissolve-se no bem comum a conquista pessoal, o imediatismo. Corta para o povo na rua. O publicitário caminha na multidão com o filho e, por um instante, não parece dar pela falta da mulher.

No | Trailer legendado

No | Cinemas e horários

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Ano: 2012

País: Chile, França

Classificação: 14 anos

Duração: 115 min

Direção: Hito Steyerl

Nota do Crítico
Ótimo

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