NAZA usa cinema para construir o contexto assustador dos ataques a Gaza
Dirigido por dupla vencedora do Oscar por Sem Chão, filme tem entrevistas reais com membros das forças militares de Israel
Créditos da imagem: Vitrine Filmes
Não seria exagero dizer que os primeiros 76 minutos do breve, mas emocionalmente interminável, NAZA, existem para criar um contexto completo e devastador de seu 77º e último minuto. É nesse momento derradeiro que os diretores Yuval Abraham e Rachel Szor, membros do time que há dois anos venceu o Oscar de Melhor Documentário por Sem Chão, enfim decidem nos mostrar a carnificina que acontece em Gaza depois de um bombardeio orquestrado pelas forças de defesa de Israel (FDI).
É uma cena devastadora, assombrosa, inesquecível; o tipo de imagem que por si só já rende dez mil palavras e resume em tela – numa filmagem vertical, claro – o sentimento de desespero de ver a morte de civis, entre eles crianças e mulheres. A sequência, gravada por um palestino que registra o lamento de um pai por seus filhos como quem daria tudo para transformar aquilo em ficção, não está ali apenas pelo choque. Ela vem sendo construída cautelosamente pelo filme desde seu primeiro minuto, e os engenheiros responsáveis por erguer essa fundação são os próprios responsáveis por apertar os botões que fazem chover enxofre naquele lugar.
NAZA é composto por entrevistas de Abraham (que fica à frente das câmeras) e Szor (nos bastidores) com membros da FDI. Com rostos escurecidos, voz alteradas e até a caligrafia escondida, essas pessoas decidem falar com os documentaristas por que... bom, a razão de terem aceitado a conversa é a grande força animadora do filme. Por que, exatamente, eles decidiram falar? Alguns se mostram claramente arrependidos, enquanto outros parecem sequer entender o que fizeram, e talvez busquem naquela entrevista a eloquência necessária para compreender o que fizeram com suas vidas. Se por um lado, eles não parecem acreditar em uma absolvição de seus pecados, por outro, quando confrontados com sua participação no que descrevem como um genocídio, alguns dos entrevistados tentam compartimentalizar tudo. "É apenas minha função," um deles diz. "Eu não devo externar valores morais, minha função é técnica." De todo jeito, não é preciso palavras para ver que todos ali parecem quebrados.
Alguns dos entrevistados desenvolveram o software que ajuda os israelenses a calcular quantos civis podem morrer com um determinado ataque (é daí que vem o código "NAZA"; cada civil é um NAZA), outros pilotavam os drones que sobrevoam Gaza. Há aqueles que trabalham diretamente com o departamento político do Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Enfim: todos participaram, nenhum se diz inocente. É como se ninguém fosse capaz de explicar.
É curioso, então, que NAZA seja um filme inteiramente sobre explicações. De testemunhos horrendos a detalhes sobre o funcionamento da tecnologia, o documentário se preocupa constantemente com a construção do contexto que pauta aquela maldita última cena. Ouvir os membros da FDI falando sobre tomar a decisão de bombardear uma casa à noite, quando a família inteira de um alvo estaria lá, por que "poucas" (leia-se, 3 a 6) crianças morreriam, é o tipo de coisa que voltará à mente quando Abraham e Szor explicitam os efeitos desse maquinário militar.
As entrevistas são conduzidas nos telhados de Tel Aviv, durante as noites. É uma escolha necessária para garantir a segurança das fontes, protegidas por uma escuridão que espelha o estado de suas almas. Gera-se, claro, menos dinâmica visual. Onde Sem Chão se mostrou magnético devido a urgência de cada registro, NAZA por vezes sofre para escapar da mesmice de suas imagens, e inevitavelmente nos desligamos, perdendo noção de quando uma conversa terminou e outra começou, mas os diretores encontram meios de aliviar esse problema.
O impacto das entrevistas a céu aberto, claro, se torna cada vez maior quando ouvimos mais e mais histórias sobre a morte vinda de cima, mas mais importante é o contraste entre a descrição do que está sendo feito com os palestinos e a normalidade com a qual os israelenses vivem seus cotidianos. Esses telhados, afinal, estão cercados por outros prédios. Neles, há apartamentos iluminados, televisores gigantes e cachorros brincando. NAZA faz questão de começar com um relato do dia 7 de outubro de 2023, e também captura o voo de um míssil do Hamas pelos ares de Israel, mas, tudo com o propósito.
Esse não é um filme interessado em perdoar o Hamas, mas o documentário tampouco faz esse preparo para justificar os atos da FDI. O que tudo isso faz, contudo, é costurar uma narrativa. Do começo com o atentado a Israel, passando por cada depoimento, NAZA pinta um cenário que potencializa o impacto de sua conclusão. Este é um filme que desmente, de vez, a mentira da impessoalidade de um ataque de drone. Lançar uma bomba é uma decisão política que afeta pessoas. Por trás disso tudo, o filme sublinha, há sempre humanos.
NAZA
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