Nagi Notes faz passeio lírico mas sem direção pelo interior do Japão
Filme de Koji Fukada é melhor quando aprende a se deixar levar pelo próprio ritmo
Créditos da imagem: Divulgação/Festival de Cannes
A Nagi que dá nome a Nagi Notes é uma pacata, belíssima e (com exceção das explosões vindas de um campo de treinamento militar próximo) pacífica cidade de campo no Japão. Em outras palavras, ela é tudo com o que Yuri (Shizuka Ishibashi) não está acostumada. Uma arquiteta que tem como sua casa a frenética metrópole de Tóquio, a mulher – divorciada e incerta quanto ao seu futuro, tanto profissional quanto amoroso – vai até o interior para visitar sua grande amiga, e irmã do ex-marido, Yoriko (Takako Matsu). Também carregando uma cicatriz de um amor que não deu certo, Yoriko vive como pecuarista e professora de arte, mas tem como maior paixão seu trabalho com esculturas de madeira. No papel, é para servir de modelo para a amiga que Yuri foi passar uma semana em Nagi. A verdade, porém, vai além disso.
Dirigido e escrito por Koji Fukada, Nagi Notes é inspirado por Tōkyō Notes, peça que o dramaturgo Oriza Hirata escreveu em 1994 com base no clássico filme Era Uma Vez em Tóquio do mestre Yasujiro Ozu. Não que você precise saber disso tudo para detectar a influência de Ozu neste novo filme (eu apostaria dinheiro que o título em português será Era Uma Vez em Nagi), já que a abordagem contemplativa, pessoal e muitas vezes melancólica está visível desde o início da história, quando procurando a casa de sua amiga, Yuri encontra o adolescente Keita (Kiyora Fujiwara), um tímido, mas perceptivo estudante de Yoriko que reconhece a visitante porque já a viu num desenho feito por seu único e melhor amigo Haruki (Kawaguchi Waku). Ele guia Yuri até a casa e ateliê de Yoriko, e lá, esses quatro personagens passam dias falando e pensando sobre identidade, romance, trabalho e o velho dilema de cidade grande versus interior.
São estes os mesmíssimos temas que Nagi Notes quer discutir, frequentemente através de cenas que se desenrolam sem pressa alguma e de conversas honestas entre os protagonistas, todos marcados por perdas de um ou outro tipo. Enquanto as duas mulheres lidam com relacionamentos passados, Haruki perdeu a mãe quando jovem e Keita está prestes a perder tudo e todos que conhece. Filho de militar, ele acompanhará seu pai para onde ele será transferido em algumas semanas: Taiwan. Encenado através de composições que transbordam poesia, Nagi Notes passeia entre tudo isso de forma lírica, mas muitas vezes sofre sem um senso de direção.
Apesar de Ozu ser a influência mais clara, seria fácil citar os dois titãs do Studio Ghibli, Isao Takahata e Hayao Miyazaki, como autores que Fukada tem em mente, particularmente devido ao foco de Nagi Notes na natureza. Entre as vistas verdejantes, o som do vento e a parcimônia dos movimentos, Nagi Notes nunca é tão bom quanto quando se deixa levar pelo ritmo calmo de sua ambientação, e funciona acima de tudo como esse filme-passeio, cujo grande mérito é o de traduzir para a tela a sensação de Yuri de descobrir, talvez pela primeira vez em anos, como aproveitar um momento de paz.
O problema é que Fukada parece ficar desconfortável em meio ao marasmo, e decide literalizar algumas de suas ideias em tramas – particularmente envolvendo Keita e Haruki, de quem o roteiro se afasta durante praticamente todo o segundo ato – que oferecem um senso de urgência francamente desnecessário. Enquanto deixava seu foco aberto, Nagi Notes conseguia lidar melhor com suas várias temáticas justamente porque elas pareciam secundárias à forte combinação de imagens e sons capturada por Fukada. Ao afinar seu olhar, o cineasta despreza a maior qualidade do seu trabalho e ensaia algo que soa como planejado demais para um filme outrora tão natural.
A diferença entre estar perdido e não precisar de um destino, afinal, depende mais da postura da pessoa do que das circunstâncias em que ela se encontra. Nagi Notes, enfim, perde sua característica livre e parece procurar ofegante por um caminho a seguir.
Crítica escrita em 14 de maio no Festival de Cannes. Nagi Notes ainda não tem distribuição no Brasil.
Nagi Notes
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