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Crítica

Mulher-Maravilha | Crítica

Heroína da DC ganha história de origem forte, divertida e universal

Natália Bridi
30.05.2017
07h41
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Apenas um elemento ameaçava o equilíbrio de forças na trindade de heróis da DC formada por Batman, Superman e Mulher-Maravilha: representação. Enquanto Homem-Morcego e Homem de Aço acumulavam décadas de acertos e fracassos no cinema e na TV, a Princesa das Amazonas contava apenas com a série estrelada por Lynda Carter na década de 1970 e inúmeras tentativas frustradas de levar sua história para as telas (leia mais).

Chega então Gal Gadot, ex-miss, ex-recruta do exército Israel, ex-modelo e ex-estudante de Direito, para dar vida à heroína do novo universo cinematográfico da Warner/DC. Uma escalação recebida com desconfiança - “Como uma atriz inexperiente e de corpo esguio poderia dar vida a um dos maiores ícones dos quadrinhos?”-, logo rebatida na sua estreia em Batman Vs Superman: A Origem da Justiça. Forte, feminina e cativante, a Mulher-Maravilha finalmente ganhava uma representação nos cinemas, 75 anos depois da sua estreia nos quadrinhos. Era hora de dar o próximo passo: o filme solo.

Ciente da pressão em torno da tarefa - o primeiro longa-metragem estrelado por uma grande heroína dos quadrinhos - a diretora Patty Jenkins acerta ao optar por um caminho simples. Mulher-Maravilha é uma clássica história de origem, calculada para apresentar Diana e seu universo para um grande público. Inspirada pelo Superman de 1978 e pelo espírito de aventura de Indiana Jones, a diretora cria uma narrativa leve e encantadora, intercalada por empolgantes cenas de ação.

Diana é apresentada ainda criança, impressionada com o poder e os feitos das guerreiras de Themyscira, mas superprotegida pela rainha Hipólita (Connie Nielsen), sua mãe. O roteiro de Allan Heinberg, porém, não perde tempo em levar a história para frente. A origem das Amazonas é didaticamente explicada como uma história de ninar, o que inspira o treinamento secreto da jovem princesa com a tia Antíope (Robin Wright), leva a descoberta de sua força superior e culmina na chegada de Steve Trevor (Chris Pine), que por sua vez leva o contexto da trama para a Primeira Guerra Mundial. Uma trajetória completamente captada por Jenkins, que não esquece de criar a conexão com o público. Estão lá a força e a diversidade das Amazonas, a magia de Themyscira, a gana e a inocência de Diana, os segredos de Hipólita para proteger a filha de Ares, o deus da guerra, além do charme mundano e a convicção de Trevor.

Essa combinação - simplicidade narrativa e conexão emocional - dá a Mulher-Maravilha uma aura de cinema antigo, com uma ingenuidade que se distancia do “sombrio e realista” para abraçar o fantástico. É o que permite soluções doces, por vezes singelas, e dá espaço para cenas divertidas, como o contraste entre a princesa guerreira e um mundo conservador. O choque frente às regras sociais direcionadas às mulheres - restritas por roupas e sem direito a ação e opinião - expõe o ridículo da situação sem que seja necessário assumir uma postura de conscientização.

A naturalidade com que a história de Diana ganha forma também está na facilidade com que o filme a conecta aos outros personagens. Da relação com a mãe e a tia (que representam sua origem e seu chamado para lutar), passando por Steve Trevor (em uma história de amor equilibrada e sincera), Etta Candy (que mostra o tratamento destinado às mulheres no mundo dos homens) e o time formado pelo árabe Sameer, pelo escocês Charlie e pelo nativo-americano Chefe (que revela outras formas de preconceito e opressão), todos fazem parte da formação da heroína, tornando-a mais complexa. Um feito que passa por uma escalação precisa do elenco, que acerta no tom de cada cena, seja na demanda por drama ou humor.

Apenas a construção dos vilões destoa da lógica escolhida pelo filme. Ares está no centro da transformação de Diana em Mulher-Maravilha, mas o longa fica entre tratá-lo como um inimigo comum e um ser multifacetado, sem sucesso em nenhum dos lados. Há boas cenas com a Doutora Veneno e General Ludendorff, mas o ato final cai na velha síndrome hollywoodiana de elevar a ação em detrimento da coerência. São minutos de muito barulho por nada, sem qualquer contribuição direta para a lição que a heroína precisava aprender sobre a humanidade. É um momento que chega a divergir das escolhas visuais de Jenkins até então, que troca o tom retrô e prático pela pirotecnia digital.

Mulher-Maravilha, porém, não é uma vítima do seu vilão. A conexão estabelecida anteriormente com a personagem perdura para além dos créditos em uma sensação de realização. A heroína finalmente ganha o centro da ação em uma história forte e extremamente feminina, mas de alcance universal. Um filme dirigido e estrelado por mulheres que não cogita qualquer barreira de gênero, como a própria Diana jamais cogitou. A princesa das Amazonas só precisava mesmo de oportunidade para mostrar o que podia fazer nos cinemas.

Nota do Crítico
Ótimo