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Muito Gelo e Dois Dedos DÁgua| Crítica

Muito gelo e dois dedos dágua

Marcelo Hessel
05.10.2006
00h00
Atualizada em
02.11.2016
04h10
Atualizada em 02.11.2016 às 04h10

Muito Gelo e Dois Dedos DÁgua
Brasil, 2006
Comédia - 98 min

Direção: Daniel Filho
Roteiro: Alexandre Machado, Fernanda Young

Elenco: Mariana Ximenes, Paloma Duarte, Laura Cardoso, Ângelo Paes Leme, Thiago Lacerda, Carla Daniel, Aílton Graça

Com muito gelo e dois dedos dágua. É assim, como no título do novo filme de Daniel Filho, que Roberta (Mariana Ximenes) pede os seus uísques. Ela diz que não gosta do sabor, só do efeito. Não é apenas a sua bebida que acaba diluída. O próprio filme procura o porre rápido e não sabe curtir o momento.

A embriaguez é visual. Começa na sequência de abertura, com a rotoscopia, processo de desenhar sobre fotogramas, como nos filmes de Richard Linklater. Roberta ainda é nova nessa época, fica traumatizada por ser a garota sensível da escola que não se enquadra nos padrões. Ela conta na aula que suas últimas férias foram iguais às anteriores, não haveria porque escrever uma redação nova. Corta para os vinte e poucos anos, os desenhos na tela se desfazem - Roberta se une à irmã, Suzana (Paloma Duarte), para se vingar da culpada por todos os seus males de adolescência: a avó.

O plano é dopar a velha, interpretada por Laura Cardoso, e levá-la para um fim de semana na praia, aos moldes dos pesadelos da infância: bronzeado forçado, para ganhar viço, depilação e escova de alisar, porque cabelo demais não é coisa de menina direita, e alicate de cutícula, para embelezar as unhas. As netas vão à desforra, e que comece a tortura. Esse tipo de humor negro não é incomum nas obras do casal de roteiristas Fernanda Young e Alexandre Machado, criadores de Os Normais. Também não é difícil enxergar em Roberta a revolta de Fernanda Young contra a ditadura da beleza. Um filme que se esboça fashionista-esquerdista, por assim dizer.

Seria ótimo se a marcação de território do filme parasse aí, na mistura de drama e humor desse conflito de gostos e gerações. Mas a embriaguez visual - que a esta altura já passeou também por deformações anatômicas via computação gráfica, cortes rápidos, sobreposição de planos e outros deslumbramentos de pós-produção - é também uma bebedeira narrativa.

E as referências são várias - vão desde acordes de John Williams que associam Thiago Lacerda ao Super-Homem, passando por citações da contracultura (psicodelismo versus nostalgia da ditadura), pela chanchada oitentista (com direito a nudez descompromissada e perseguição à la Trapalhões), por dramas de mãe e esposa, até chegar a uma piadinha de Hannibal Lecter. Fica evidente a opção de Daniel Filho pela comédia escrachada, nada contra isso, mas essa opção acaba anulando o miolo dramático que se ensaiava no começo.

Pode ser um problema dos roteiristas: não é fácil, vindo do imediatismo de séries de TV, labutar a psicologia de um personagem numa película de uma hora e meia. E é evidente que Young e Machado sabem mais de tiradas momentâneas do que de dramaturgia. Mas pode ser também instabilidade na direção: há um objetivo a ser alcançado, que é entreter a platéia, e criam-se paliativos os mais variados, visuais e textuais, para chegar rápido a esse porre. No meio de caminho se perdem boas idéias - como a própria premissa em si. A vingança cede lugar a resoluções sentimentais e românticas de última hora.

E a avó fica lá, largada ao sol - que aliás é uma cena bem boa, pelo que ela tem implícito de sadismo e estética. Sadismo e estética, aí está, são duas coisas que se cruzam freqüentemente e poucas vezes são analisadas num filme. Muito gelo e dois dedos dágua poderia ter enveredado por esse caminho - um rumo que, afinal, se insinua desde o momento em que a Mariana Ximenes ganha a tela com as sobrancelhas apagadas com tintura. Pena que o filme tenha optado pela facilidade da palhaçada. Mesmo porque essa prateleira já está lotada.

Muito gelo e 2 dedos d´agua
Muito gelo e 2 dedos d´agua
Muito gelo e 2 dedos d´agua
Muito gelo e 2 dedos d´agua

Ano: 2006

País: Brasil

Classificação: 14 anos

Duração: 98 min

Nota do Crítico
Ruim

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