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Crítica

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi | Crítica

Dee Rees cria épico rural preocupado em atender a contento seus muitos protagonistas

Marcelo Hessel
20.02.2018
16h46
Atualizada em
21.02.2018
17h08
Atualizada em 21.02.2018 às 17h08

Indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado, Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississippi é acima de tudo um exercício de formatação, a transformação do romance de Hillary Jordan em uma narrativa que dê conta de muitas vozes sem dilui-las. A resultado é a conformação dessas vozes num pacote que se deseja antes de tudo harmônico.

O filme de Dee Rees se passa após a Segunda Guerra Mundial, quando dois americanos retornam do front e se estabelecem no Mississippi: o traumatizado Jamie (Garrett Hedlund) vai morar com a família do seu irmão mais velho, enquanto o inquieto Ronsel (Jason Mitchell, o Eazy-E de Straight Outta Compton) retorna à casa dos pais, que trabalham para a família de Jamie. Um branco e outro negro, ambos passam a ver o racismo institucionalizado no Estado como um atraso civilizatório, depois de ter lutado do mesmo lado na Europa.

O livro de Jordan recorre à primeira-pessoa para dar a cada personagem seu momento: todos têm noção do que querem do mundo, do que podem conseguir, e todos têm consciência da vida que levam. No filme, Rees reduz o volume desse texto a um número considerável mas controlado de narrações em off. Normalmente, personagens que - por um contexto social e histórico - têm suas vozes e sua agência silenciadas, como a esposa do fazendeiro vivida por Carey Mulligan, ganham espaço no off. Por oposição, o personagem de Jason Clarke, o arquetípico americano da Grande Geração, é puro fazer, puro realizar - a reflexão em voz alta se reserva aos outros.

Na combinação com a trilha sonora grave de Tamar-kali, o texto em off cheio de ponderações e licenças poéticas dá a Mudbound um inequívoco tom de épico rural, como Hollywood sempre produziu nas suas narrativas sobre gerações e transformações no Sul, quando em contato com a mentalidade progressista de seus heróis trágicos libertários vindos da nação ianque. Esses filmes, que durante os anos 1940 e 1950 formaram o grosso da produção local de prestígio, como ...E o Vento Levou e Assim Caminha a Humanidade, já traziam consigo um tipo de construção de personagens impregnado de pesar psicanalítico - campo clínico cujo auge começou justamente nos anos 1950.

Se Mudbound tem uma cara de Hollywood clássica, meio solene e hiperdramática, é porque está perfeitamente encaixado nessa corrente, a do tom épico permeado pelas facilidades da leitura psicanalítica. Chamo de facilidades porque parece muito cômodo para o filme ter os dois personagens de Hedlund e Mitchell, nos encontros etílicos que eles passam a nutrir entre si, falando tão aberta e esclarecidamente sobre seus traumas de guerra, seus anseios frustrados, seus rancores. Numa época em que homens não falavam de seus problemas, esses personagens assumem perfis que são muito mais contemporâneos nossos - e Mudbound recorre a isso para tornar suas mensagens mais claras.

Mensagens essas que têm muito valor, evidentemente: o inconformismo, a solidariedade, o senso de empatia que tanto nos falta hoje. A condução segura de Dee Rees, ajudada também pela sensível direção de fotografia de Rachel Morrison (que tornou-se neste ano a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de fotografia), evita que Mudbound seja só uma massa de boas intenções, e a formatação que ela fez do romance original não deixa pontas soltas ou mal aparadas. Ainda assim, convém não esquecer que muitas escolhas feitas por Rees são pensadas para tornar a experiência do espectador mais familiar e acessível do que exatamente desafiadora.

Nota do Crítico
Bom