Daniel Oliveira com cadáver em Morto não Fala

Créditos da imagem: Globo Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Morto Não Fala

Filme inverte a ordem do thriller sobrenatural para fazer um terror mais brasileiro

Marcelo Hessel
10.10.2019
16h49

Frequentemente dá para entender os países pelos filmes que fazem, e no cinema de horror, que busca no mal-estar suas matérias-primas, feridas sociais se mostram mais nítidas. Morto Não Fala é um terror de fantasma absolutamente brasileiro, por exemplo, e o que permite essa constatação, primeiro, é o contraponto com o thriller sobrenatural que consumimos em massa, vindo dos EUA principalmente.

O filme do diretor Dennison Ramalho trata de um espírito vingativo, um espírito que busca vingança por justiça - como é praxe no gênero. Para não incorrer em spoilers, digamos só que Daniel de Oliveira interpreta Stênio, funcionário do IML da periferia de São Paulo que tem o dom paranormal de conversar com os mortos, e ao longo de Morto Não Fala esse dom se revela uma maldição ou talvez um castigo, porque o que temos aqui é um thriller de fundo moral.

Não há muita novidade até aqui, porque a mediunidade sempre é aceita com naturalidade nesse tipo de filme, e inclusive Morto Não Fala começa sem cerimônias quando o primeiro cadáver abre a boca para falar com Stênio, como se fosse a coisa mais normal do mundo. (O único elemento disruptivo talvez seja a opção por fazer a fisionomia facial dos mortos via computação gráfica e não com o trabalho de maquiagem prática a que Ramalho se habituou em seus filmes anteriores.) A novidade, sim, vem a seguir. Morto Não Fala inverte a receita tradicional do gênero e a relação de causa e efeito é linear: primeiro temos os eventos que provocam a paranormalidade, e só depois testemunhamos a maldição do Além propriamente dita.

Fosse americano, é possível supor que Morto Não Fala transcorreria ao contrário. Primeiro testemunharíamos os sustos, acompanharíamos ao lado do protagonista assombrado as extensões desses pavores, e ao fim de uma investigação (a clássica exposição de fatos do passado, da qual os thrillers sobrenaturais americanos se ocupam no terceiro ato) os motivos do fenômeno seriam desmascarados. Se a sociedade americana é legalista na essência, obcecada com as leituras possíveis da sua Constituição, nada mais natural que esse tipo de filme transcorra no fundo como um relato forense, judicialista.

A jogada de Morto Não Fala é desfazer essa expectativa logo na premissa, invertê-la e adaptá-la a um certo estilo muito brasileiro de dramaturgia, que remete às crônicas morais de Nelson Rodrigues. O que Ramalho faz no seu terror não está longe das casas de classe média no subúrbio e das repartições públicas que povoam as tragicomédias rodrigueanas, ditadas pela pulsão sexual e cheias de homens pusilânimes e mulheres endurecidas pela vida, de traições e hipocrisia. Se Morto Não Fala é linear no conto de assombração e foca no castigo, é porque a cultura brasileira, ao contrário das redenções americanas, está fundamentada no punitivismo.

Esses são o ambiente e a estrutura narrativa ideais para que Ramalho realize - pela primeira vez no cinemão, com elenco estrelado e apoio da Globo Filmes, depois de uma carreira dedicada ao nicho do horror independente e à TV - um filme que se entrega aos escapes de sadismo que também fazem parte da natureza do horror no cinema. O diretor imagina situações para Stênio não de forma gratuita (Morto Não Fala está longe de ser um torture porn) e sim baseadas em fobias que ecoam nossos mal-estares, mas sem perder de vista as oportunidades visuais de cenas com desmembramento e jorro de sangue.

É interessante que Morto Não Fala comece justamente com o que de mais "gráfico" pode oferecer: cadáveres nus, inchados de hematomas, retalhados. Ao colocar logo de cara o espectador num ambiente clínico que trata o corpo e a nudez como elementos naturais, Ramalho consegue se vacinar contra o potencial sensacionalismo que poderia haver em Morto Não Fala quando o filme realmente abre as válvulas de escape sádicas. O resultado é um filme que pensa situações de horror com inventividade (a cama de gato, os espelhos, os doppelgänger) mas que não parecem autônomas ou isoladas, e sim parte de um crescendo. O padrão em Morto Não Fala é o do incômodo - e também o da melancolia.

E nisso Ramalho termina fazendo uma obra que, embora se estruture e recorra a ferramentas clássicas do thriller sobrenatural industrial, resulta bastante política. Lembra um pouco a forma como o cinema brasileiro tentou se aproximar da periferia em um filme da virada da Retomada, no começo dos anos 2000, O Invasor: ali, as bordas das metrópoles são entendidas não como espaços de abandono mas antes como centros de tensão entre as bases da pirâmide brasileira, a antiga classe C em ascensão, a classe média estabelecida tentando defender seu território estreito. Nisso também o bairro onde Morto Não Fala se passa parece mais o subúrbio rodrigueano do que uma caricatura da periferia.

Sendo então um espaço definido pela tensão, o bairro do filme por extensão é também marcado pela violência. Da mesma forma que Morto Não Fala começa clínico, frio, nas autópsias do IML, e vai injetando sangue nos corpos até reanimá-los por completo no desfecho coletivista, a abordagem da violência também se transforma. Ramalho parte do dado estatistico, distanciado e quase anedótico (o morto na briga de torcida, o morto na disputa de gangue), e aos poucos trata de descascar a nossa cebola social até seu núcleo crítico: trazer a violência para dentro de casa, epicentro das tensões, e fazê-la sentir na pele.

A amarração entre o terror de assombração e a crônica urbana é tão bem feita e soa tão orgânica, no fim, que o filme nem parece ser um experimento autoral de Ramalho e uma aposta de gênero. Parece, sim, que o brasileiro e os fantasmas foram feitos um para o outro desde sempre, e o nosso cinema de horror chega à maturidade para constatar o óbvio.

Nota do Crítico
Ótimo