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Crítica

Morte e Vida Madalena abraça a comédia de erros como declaração de princípios

Guto Parente faz seu Saneamento Básico atualizando o cinema de guerrilha

Omelete
4 min de leitura
17.09.2026, às 20H21.

Você não precisa ser fã de Los Hermanos, ou saber a letra de “O Vencedor” ou “Cara Estranho”, para entender que uma geração de artistas versou sobre o fracasso como uma forma de sondar alternativas para as cobranças de resultado que esta quadra do século nos impõe. Na métrica dos algoritmos a ideia de sucesso deixa de fazer sentido; uma vitória só exigirá novas e outras vitórias seguidamente, enquanto o fracasso… ele se basta.

Madalena (Noá Bonoba) não pode se dar ao luxo de romantizar o fracasso, porém. Como uma boa produtora do audiovisual, a protagonista de Morte e Vida Madalena não tem outra opção senão perseverar. Gestante há oito meses, ela carrega ainda o filme da sua vida, tentando tirar do papel o último roteiro que seu recém-falecido pai (Carlos Francisco) escreveu. O projeto em questão é um filme B de ficção científica, o que logo de cara já sugere o tom absurdo desta comédia de erros escrita e dirigida por Guto Parente.

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Nunca envelhece aquela máxima que diz que “é preciso uma vila inteira para criar uma única criança”, e Morte e Vida Madalena transforma esse esforço coletivo em mote de suas gags e viradas. A cada novo diretor que desiste de filmar o roteiro do seu pai, Madalena acumula responsabilidades e se descobre dividindo suas alegrias e seus lutos com as pessoas que a cercam no set. Evidentemente há uma metáfora aí dizendo, o tempo todo, que fazer cinema no Brasil é um parto. A questão é que Parente não a diz com ressentimento, mas com energia, afinal o que define uma comédia de erros é amar o erro. Quanto mais erros, mais engraçada ela será.

De certa forma, portanto, Parente reedita a romantização do fracasso numa chave que sirva ao seu filme muito pontualmente. A gestação é metaforizada mas, antes disso, e principalmente, ela é um dispositivo de trama: a barriga de oito meses de Madalena sempre insinuante em primeiro plano, colocando o espectador à espera constante de um parto prematuro motivado pelo estresse, para fins cômicos e dramáticos. O discurso vem posteriormente, ainda que o filme só exista em função dele.

Não é muito diferente do que Parente fez também na chanchada de horror O Clube dos Canibais (2018), sua outra aproximação do cinema de gênero mais popular. Morte e Vida Madalena parece mais bem resolvido, porém, nesse alinhamento entre o formato primeiro e o discurso depois. Dado que se trata de um filme em busca do popular, cabe então uma comparação popularesca: Morte e Vida Madalena soa como um Saneamento Básico - O Filme (2007) feito do acúmulo desses 20 anos de luta pelo cinema brasileiro fora do Eixo. É o cinema de guerrilha não como o elogio afetivo do artesanal somente, mas de fato como uma declaração de princípios, de todo um modo de existir.

No geral os filmes de Guto Parente transpiram essa mesma urgência que Madalena vive na comédia, tanto os longas no coletivo Alumbramento quanto os projetos solos dos últimos 15 anos, dos experimentais aos mais narrativos. São filmes muito variados em tema e propósito, parece que vão sendo feitos em pinceladas amplas à medida que o mundo permite. Há uma noção de inconformidade aí que acaba energizando Morte e Vida Madalena em particular.

Dito isso, parece importante anotar que esse filme não seria tão bem sucedido - na verdade, seria um filme outro completamente - sem a presença de Noá Bonoba. Nome importante da causa trans no cinema do Ceará, Noá foi atriz e preparadora de elenco do longa anterior de Parente, Estranho Caminho (2023), antes de se tornar protagonista do novo filme. Essa pulsão de inconformidade converge na tela para a presença transgressora de Madalena, gestante interpretada por uma atriz travesti. Não só pelo tempo cômico e o carisma de Noá, mas também por esse manifesto registrado em imagem de forma muito direta e despudorada, Madalena por fim se torna expressão ressignificada do “erro”. Uma que não se conforma, que não aceita a norma, nem a suposta receita do que dizem ser o sucesso.

Nota do Crítico

Morte e Vida Madalena

Morte e Vida Madalena

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NR Comédia, Drama
Duração: 85 min
Direção: Guto Parente
Roteiro: Guto Parente
Elenco: Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo, David Santos, Honório Felix, Jennifer Joingley, Linga Acácio, Rodrigo Fernandes
Data de lançamento: 17 de setembro de 2026

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