A Morte de Robin Hood flerta com a soma-zero em busca de sentido
Michael Sarnoski encena a violência para depois tentar redimi-la
Nos cincos anos entre Pig (2021) e A Morte de Robin Hood (2026), o diretor e roteirista Michael Sarnoski criou para si um perfil de narrador bressoniano, moral. Seus filmes lidam com o peso do mundo pós-pandemia, histórias de culpa e danação que se imprimem nos pequenos gestos e nas grandes consequências. Digo que Sarnoski criou esse perfil para si, de uma forma consciente, porque simultaneamente, como numa soma-zero, seus filmes precisam atender expectativas “profanas” de um cinema de ação orientado pela violência.
Em Pig, um thriller vendido como um sub-John Wick, isso é atendido na cena da luta clandestina, que dá a Nicolas Cage o rosto ensanguentado que ele carregará para o restante do filme. Em A Morte de Robin Hood, a violência chega mais contextualizada mas não menos performática. Transcorrem meados do século XIII e um velho Robin Hood (Hugh Jackman) espera por sua morte, assombrado por uma vida de brutalidade. Sarnoski filma em 35mm e escolhe emoldurar o início com faixas pretas como se estivéssemos nos anos 2000 no início da projeção digital. A ideia dessa janela reduzida, cortada em scope (2,39:1) por cerca de meia hora, antes da janela se expandir verticalmente para um aspecto de 1,66:1 até o fim da projeção, é “encaixotar” a violência - e apartá-la do filme “em si”.
Sem entrar em spoilers, digamos que a violência que pauta a meia hora inicial é a maneira que Sarnoski encontra para demarcar visualmente, com a contundência que se espera dela, toda essa brutalidade que definiria o personagem e a sua história. Não estamos diante de um Robin Hood como o de Kevin Costner ou de Russell Crowe, muito menos o de Errol Flynn. Sai todo o contexto histórico das Cruzadas, a aventura e a virtuosidade de “roubar para os pobres”; não há fidelidade a Ricardo I nem rivalidade com o xerife de Nottingham. “Os xerifes foram muitos”, diz Robin no filme, reduzindo a especificidade de suas lendas a uma contagem de corpos. Assim dita sua memória de homem enlutado.
Sarnoski usa como base uma balada específica do século XVII, que narra o fim da vida de Robin Hood em um priorado, para reenquadrar a lenda como um fantasma em busca de um sentido para a vida que levou, um sentido para além da fabulação pura e simples. Não haveria nada de errado com a fabulação, afinal o que são as lendas senão figuras espectrais que vivem em função das histórias que os outros contam delas? Há uma tentação formidável aí de comparar este A Morte de Robin Hood com o recente A Odisseia de Christopher Nolan para ilustrar como Odisseu de fato fundou os mitos do homem moderno sendo o poeta de si mesmo. Mas trocamos a Antiguidade pela culpa do Cristianismo, então este Robin Hood se define pelo martírio, da mesma forma que Bresson filtrou Dreyer recontando Joana d’Arc, em busca do sacrifício ritual que redima o mundo.
É ao chegar no priorado, onde o Robin de Jackman cura suas feridas, que Sarnoski parece acreditar que seu filme exista de fato, como acreditou no seu longa anterior, Um Lugar Silencioso: Dia Um (2024), achar na igreja abandonada em Manhattan o respiro da ação que daria ao filme de apocalipse seu pilar moral. Num filme típico de monstro ou zumbis como aquele, linear e escalonado, talvez seja mais orgânica essa operação de encarar, resistir e expurgar a jornada de violência, dado que ela é tensionada o tempo inteiro. Em A Morte de Robin Hood, Sarnoski precisa oferecer no priorado novas tensões para que seu filme não se torne um lamento monocórdio contra a violência que, infelizmente, o gênero do épico de batalha forçou o diretor a performar de início, em cenas escuras e cortadas.
Contra o trabalho de Sarnoski, pode-se dizer que ele almeja encontrar o transcendental no mundano mas lhe falta para isso a austeridade de Bresson ou mesmo a paciência de um Andrew Dominik, cujo malickiano O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) também opera no nível dos espectros presentes. A Morte de Robin Hood é um filme mais quadrado que o elusivo Jesse James porque suas viradas de roteiro têm alvo evidente; o próprio Hugh Jackman parece estar revisitando aqui a figura do mentor relutante consagrada em Logan (2017), em busca da inocência infantil que lhe salvará da danação.
A favor de Sarnoski, é preciso dizer que Jackman, a despeito do eventual déjà vu, se presta a viver Robin Hood com o máximo de entrega e o mérito se divide com a direção. No longo segmento em que Robin é recolhido pela freira Brigid (Jodie Comer) que comanda o priorado, tudo se resume ao drama de câmara que demarca a distância entre os dois. Em última instância, aproximar-se de Brigid é alcançar o perdão, e o filme então substitui o épico histórico pelo romance intimista com plena consciência da carga que a situação carrega. Sarnoski não se furta a explorá-la; os planos-detalhes da sangria são um aceno inspirado ao erótico e ao sagrado. Nas trocas entre Comer e Jackman, que Sarnoski encena de forma diligente, o filme encontra a tensão de que dependeria.
Fala-se muito de performance hoje em dia. Tudo indica que a epidemia de disforia que nos assola tem esse sintoma latente, que é a autoconsciência de tudo ao redor que pode e será descrito e julgado como performático. É curioso que este A Morte de Robin Hood talvez se defina pelo performático também, primeiro na sua expressão menos lisonjeira (os travelings de franco sadismo e falso pesar com que Sarnoski filma a violência em scope) e depois justificado, na procura pelos semblantes dos seus protagonistas e na sua fixação. Jackman e Comer “performam” porque afinal o filme depende deles e de suas reações, e o lugar onde A Morte de Robin Hood acontece não seria outro senão nos olhares dos dois, onde a jornada completa se contém, dita ou não dita.
A Morte de Robin Hood
The Death of Robin Hood
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