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Crítica

Morro dos Prazeres | Crítica

Documentário trata a pacificação policial no Rio de Janeiro como um processo de descobertas

Marcelo Hessel
22.10.2013
12h37
Atualizada em
29.06.2018
02h42
Atualizada em 29.06.2018 às 02h42

Nos ótimos documentários Justiça e Juízo, sobre a rotina de tribunais, delegacias e presídios no Rio de Janeiro, a diretora Maria Augusta Ramos tenta entender por que o cidadão parece tão desamparado pelo sistema judiciário no Brasil. São filmes que partem de um organismo com estruturas, hierarquias e normas muito particulares, para observar como esse organismo se comporta na prática, em situações que insistem em fugir da regra.

morro dos prazeres

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O caso de Morro dos Prazeres, o novo filme da cineasta, é bem distinto. Maria Augusta filma os primeiros meses da ocupação da Polícia Militar no morro, situado na Zona Sul do Rio, em 2011. Como em tantas outras favelas, lá não há um poder público estabelecido; o Estado, representado pela UPP, só começa a preencher o vácuo administrativo deixado pelo tráfico. Então é como se assistíssemos não à rotina, e sim ao nascimento de um sistema capaz de organizar aquela sociedade.

A câmera elege alguns personagens - um politizado vendedor de livros, uma menina enquadrada recentemente por tráfico, um carteiro/técnico de futebol, além dos policiais - e os acompanha às costas pelo sobe-e-desce (e eventuais escaladas) das vielas do morro, como se fosse não só um processo de reorganização, mas antes disso uma jornada de descobrimento.

E o que torna Morro dos Prazeres um filme bastante emocionante é que esse nascimento, as descobertas, obviamente não acontecem sem conflitos (a ironia de um lugar ultrapoliciado chamar-se "Prazeres" não escapa à cineasta) e o esforço de cada morador do morro é decisivo para sedimentar a mudança - seja distribuindo correspondências, montando times de futebol ou faxinando a casa. Já as assinaturas em papéis - na sede da UPP, no tribunal - aparecem no filme como lembranças de um velho Estado que tenta se impor como sabe, pela burocracia.

Embora este seja um documentário que flerta com uma lógica ficcional - Maria Augusta Ramos busca e encena relações de causalidade sem pudor, como quando o livreiro abre um volume de Bakunin sobre Deus e o Estado, logo depois de contestar a presença da polícia no morro - seu poder de ver e diagnosticar as coisas, de encontrar uma síntese que não seja redutora, é invejável.

E sem dúvida há muito o que ver no Morro dos Prazeres, como por exemplo o momento em que percebemos que um garoto andrógino de cabelo aparado e muitos piercings na verdade é uma menina lésbica - uma personagem do tipo que todo documentarista sonha encontrar, porque ela escancara a nossa própria incapacidade de enxergar o outro, a sua identidade, sem um esforço atento de observar e de entender.

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Morro dos Prazeres
Morro dos Prazeres
Morro dos Prazeres
Morro dos Prazeres

Ano: 2013

País: Brasil, Holanda

Classificação: 14 anos

Duração: 90 min

Direção: Maria Ramos

Nota do Crítico
Ótimo

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