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Crítica

Mogli - O Menino Lobo | Crítica

Disney retorna ao clássico apostando no maravilhamento mas sem suavizar demais os perigos

Marcelo Hessel
13.04.2016
17h22
Atualizada em
19.08.2019
11h52
Atualizada em 19.08.2019 às 11h52

Ao mesmo tempo em que Mogli - O Menino Lobo (The Jungle Book, 2016) é um típico filme da Disney com alto índice de fofura, potencializado pela concentrações de filhotes e pequenos animais criados em computação gráfica, a nova adaptação ao cinema do clássico livro de Rudyard Kipling não se furta a lidar com o senso de perigo e o potencial de violência da vida na selva.

Nesse sentido, é um longa que se filia à tradição das melhores animações da chamada era de ouro da Disney, dos anos 1940 a 1950, como Dumbo e Cinderela, que misturavam encantamento com o pavor do isolamento e da perseguição. Dominar seus medos é um mote frequente não só da Disney dessa época mas dos contos de fada e das fábulas em geral, e ao revisitar a história de Mogli, meio século depois da animação de 1967, a última produzida antes da morte de Walt Disney, o diretor Jon Favreau tem o bom senso de preservar esse tema central.

Na trama, o órfão Mogli é criado por lobos em uma selva localizada na região da Índia, depois de ter sido salvo da morte pela pantera Bagheera. Quando o tigre Shere Khan descobre que o humano vive entre os animais, dá um ultimato à alcateia: se os lobos não se livrarem de Mogli - que está fadado a crescer e se tornar um predador como todo humano, defende o vilanesco e rancoroso tigre - Shere Khan promete impor sua vontade pela força.

A atualização fica por conta do lado tecnológico. O único ator de fato no set é o novato Neel Sethi, que vive Mogli; as demais criaturas são feitas em computação gráfica, assim como os cenários, que enchem os olhos em 3D com suas cores vivas. Embora o espectador sempre depare com a estranheza dessa tentativa de naturalizar as criaturas feitas com CGI fotorrealista, os animais surgem bem vivos na tela, em seus movimentos, suas feições e especialmente em suas vozes - distribuídas a um elenco excepcional em inglês, de Bill Murray (o urso Baloo) e Ben Kingsley (Bagheera) a Idris Elba (Shere Khan) e Christopher Walken (Rei Louie). 

Não é o visual, porém, que dá estofo a esses personagens, e sim o que eles representam e o que os motiva. Como no livro de Kipling, cheio de contornos morais entre os vários grupos de animais da selva, há uma disputa latente por poder que enriquece esse universo de ficção, e que acrescenta àquela noção de uma violência iminente. Nesse cenário, o frágil Mogli não surge como um macho alpha à la Tarzan, rei dos animais, e sim como um representante do espectador, que se deslumbra como se testemunhasse as coisas da selva pela primeira vez.

É muito simples, então, mas também muito eficiente, a estratégia de Jon Favreau para nos transportar para dentro desse mundo. Neel Sethi tem carisma suficiente para ser esse nosso guia de safari bem humorado, passeando por cenários e números musicais que evocam uma época de narrativas mais descomplicadas, e em cenas de ação que não soam tão gratuitas quanto nos blockbusters mais protocolares. Auxiliado por uma equipe muito competente de finalização - que envolve técnicos em efeitos da Weta, da Digital Domain e da Jim Henson's Creature Shop, entre outras empresas - o diretor estende uma ponte entre a tradição Disney e o futuro dos filmes em computação gráfica que logo de cara já parece bastante sólida.

Nota do Crítico
Ótimo