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Missão: Impossível III | Crítica

Missão: Impossível III

Marcelo Hessel
04.05.2006
00h00
Atualizada em
05.11.2016
08h04
Atualizada em 05.11.2016 às 08h04

Estilo às vezes se percebe nos detalhes. Tem uma cena em Missão: Impossível 3 (Mission: Impossible III, 2006) que diz muito do tipo de marca que o diretor J.J. Abrams, criador das telesséries Alias e Lost, procura imprimir neste seu primeiro projeto de cinema. O agente Ethan Hunt (Tom Cruise) está amarrado e amordaçado numa maca. Três oficiais o vigiam em um elevador. Todo mundo já sabe que Ethan os derrubará. Coadjuvantes anônimos desse tipo contam apenas no saldo de mortos, afinal. Mas a câmera se ocupa de apresentá-los: seguindo em zigue-zague dentro do elevador, de close em close, sem cortes, dando um rosto a cada um dos três. É como se Abrams se importasse com eles, segundos antes de autorizar o trucidamento.

No primeiro filme da série, de 1996, Brian De Palma fez o que sabe melhor: um jogo de ilusão com aquilo que nossos olhos acreditam ser a verdade. John Woo reproduziu no segundo, de 2000, os tiques que o consagraram no gênero da ação, duelos a balas em câmera lenta, especialmente. Que tipo de assinatura Abrams quer para si? Um Missão: Impossível mais humano, capaz de dar uma identidade e uma personalidade ao leque de pessoas que atravessarão a tela entre uma explosão e outra - ainda que esse humano seja tão fugaz quanto uma troca de olhares cúmplices antes que uma cápsula de nitroglicerina imploda o cérebro do sujeito. Um sentimentalismo muito do esperto: comova primeiro, atire depois. Você provavelmente conhece a fórmula. É a receita de Alias e, principalmente, a fórmula de Lost.

Ethan estava muito feliz ao lado de sua nova amada, Julia (Michelle Monaghan), quando chega uma mensagem secreta, daquelas que se autodestruirão em cinco segundos. O agente já havia deixado o campo há tempos, ultimamente só se dedicava a treinar novos recrutas - mas como a missão em questão é o resgate de uma agente tutorada pelo herói, Lindsey (Keri Russell, de Felicity - outra telessérie criada por Abrams), ele não consegue declinar a proposta. Parte então para Berlim com uma jovem equipe, um velho amigo, Luther Stickell (Ving Rhames), e uma nova preocupação: conseguirá chegar vivo em casa para os braços de Julia?

Essa premissa é como um flashback de Lost - conhecemos a realidade do personagem longe da tensão, seus momentos de descontração, sabemos da sua intimidade. Mas não demora para começar mais um show pirotécnico de Missão: Impossível. A perseguição de helicópteros entre as hélices gigantes de geradores de energia eólica, competentíssima, não faz feio perto dos grandes momentos dos dois filmes anteriores. Depois vem a invasão do Vaticano, a emboscada na ponte, a correria em Xangai...

Não seria um filme da série sem esses espetáculos, showroom para Cruise mostrar que se esborracha melhor que qualquer dublê. Trata-se de um hábito incontornável que independe dos gostos do diretor da vez. Ponto para os roteiristas Roberto Orci e Alex Kurtzman, egressos de Alias, que se mostram competentes ao enxugar ao máximo os intervalos entre ações, por meio de elipses temporais (mas sem deixar que o resultado fique um Frankenstein frenético como As Panteras: Detonando, sem liga dramática).

Isso é o feijão-com-arroz, e ele é bem executado. O verdadeiro lance de Abrams é introduzir, no meio tempo, sua armadilha emocional. Se ele consegue bancar a proposta até o final - aquela coisa do comove primeiro, atira depois - isso é outra história... Em jogo estão muitas convenções do gênero, criadas para agradar a audiência, e manter um desfecho ousado poderia ser impactante demais para o público-alvo. Nesse ponto, o trabalho de Abrams na TV é muito mais corajoso e liberto das amarras do mercado.

E há o ego de Cruise, outro ponto de desequilíbrio para o diretor. É notório que o astro manda e desmanda na franquia. Joe Carnahan (Narc) deixou a cadeira, antes de Abrams assumir, devido às clássicas diferenças criativas. Capaz de subir nos sofás por onde passa em nome do amor por sua noiva, Cruise se confunde com Ethan quando exagera nas emoções dentro da tela. Perto dele os outros agentes da IMF (Impossible Missions Force) são amadores que babam diante de suas proezas - e esse tipo de constrangimento não ajuda um thriller de espionagem que se pretende crível. Cruise chora, esbugalha os olhos, corre como um alucinado - mais para mostrar que consegue chorar, se esbugalhar e correr sem cansar do que, efetivamente, para dar solidez ao personagem. É mais ou menos o que acontece com sua vida fora da tela, essa eterna construção de uma imagem mítica de si mesmo.

Cruise poderia prestar atenção no tipo de atuação, por exemplo, que Philip Seymour Hoffman (Capote) entrega como o vilão do filme. Nada de frases de efeito, nada de esnobar o herói, nada de exagerar. O gordo Hoffman, com suas camisas suadas e olhar aborrecido, fala e gesticula somente o necessário e age com a segurança de quem é, bem, o mais fodaço dos caras maus. Cruise não pára de reiterar que ama profundamente sua mulher. Hoffman não repete duas vezes a mesma ameaça. Basicamente, essa é a diferença entre os dois. Se a tendência já era torcer pelo vilão, então fica até mais fácil.

Nota do Crítico
Regular