Minotaur | Grande drama familiar traça linha entre Rússia/Ucrânia e infidelidade
Andreï Zvyagintsev se inspira em A Mulher Infiel de Claude Chabrol para seu melhor trabalho até aqui
Créditos da imagem: Festival de Cannes/Divulgação
Inspirado em A Mulher Infiel (1969) de Claude Chabrol, o novo filme de Andreï Zvyagintsev representa seu melhor trabalho até aqui. Um premeditado mas nunca entediante drama familiar, Minotaur traça uma linha direta entre o que acontece numa família russa e a situação atual do país, com a então recém-iniciada invasão à Ucrânia servindo de contexto e subtexto para uma trama cujos paralelismos são arrepiantes e assustadores.
É naquele fatídico ano de 2022 que conhecemos Gleb (Dmitriy Mazurov) e Galina (Iris Lebedeva). Casados com um filho adolescente, eles vivem muito bem numa cidade russa relativamente próxima da fronteira e não tão grande quanto Moscou, mas ainda capaz de ser casa de empresas de sucesso. Uma delas, na área de importação com caminhões, pertence a Gleb, que tem desfrutado de sucesso profissional e financeiro sem grandes preocupações até a chegada da guerra. Além de ser pressionado pelo governo para listar funcionários que podem servir ao exército, ele vê colegas constantemente pedindo para trabalhar de home office, ou até pedindo demissão, para se mudarem para o mais longe possível das explosões que, aqui e ali, se misturam com a trilha sonora de Evgueni e Sacha Galperine para criar a sensação de um horror que se aproxima.
Mas, mal sabe Gleb, seu maior problema surgirá em casa. Galina vem sendo ignorada pelo marido há algum tempo. As conversas já haviam se tornado escassas, mas agora até uma troca de olhares é rara entre os dois. Gleb até faz uma cerimônia: ele consegue se dar bem com o filho e quando nota a esposa mal, marca um jantar com amigos num restaurante caro. Esse exterior caloroso, porém, não é mais suficiente para Galina, e eventualmente ela busca consolo fora do casamento com o fotógrafo Anton (Yuriy Zavalnyouk). Pouco a pouco, Gleb começa a suspeitar disso, até que decide investigar a fundo usando os vastos recursos à sua disposição – incluindo o departamento de segurança da empresa – para obter uma resposta.
Minotaur se revela um ensaio sobre o uso do poder na Rússia que espelha os feitos de seu personagem principal com as ações violentas de seu país. Assim como ele vende uma imagem de si para o filho, o país vive de propaganda. Ao longo de todo o filme, cartazes de recrutamento e comerciais com discursos anti-Ucrânia temperam a paisagem árida e gelada por onde Gleb anda, usando e abusando de suas conexões e posição como oligarca para fazer o que quer e evitar as consequências.
Algumas dessas ligações temáticas surgem como muito óbvias – o abuso da Rússia com seus vizinhos e a forma como Galina é regularmente silenciada pelo marido, a influência de Gleb na política local e a maneira com a qual o governo Putin interfere na cidade – e é verdade que Minotaur atravessa um território dramático que têm sido muito explorado pelo cinema russo (e até pelo próprio Zvyagintsev, por exemplo, em seu último filme: Leviatã), mas a excelência com a qual ele constrói todas as sequências de seu novo trabalho – um quê de suspense quando Gleb começa a burlar a lei, uma pitada de comédia seca na forma com a qual ele esconde seus atos e assim vai – significa que Minotaur se anuncia imediatamente como uma das grandes obras da fase atual do país.
Isso se dá, em parte, porque conforme a história avança, Minotaur encurta mais e mais a divisão imagética entre o que acontece naquela casa e nas ruas do país. Eventualmente, fica claro que o que Putin faz no palco global não é um acidente, mas sim uma conclusão lógica de um sistema autoritário infectando todas as áreas da sociedade. A família, as empresas, a política. Tudo está posicionado para que os poderosos sigam livres.
Minotauro
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