Minha Fama de Mau

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Minha Fama de Mau

Cinebiografia de Erasmo Carlos é agrado certeiro aos fãs da Jovem Guarda mas peca por falta de visão crítica

Julia Sabbaga
14.02.2019
16h04

Cinebiografias musicais existem em diversos gêneros e se assemelham sempre em seus quesitos principais, mas o que as difere é seu viés. Os longas podem focar no psicológico do protagonista, ou explorá-los em seu contexto como frutos de seu tempo. Minha Fama de Mau, cinebiografia de Erasmo Carlos levada às telas por Lui Farias, pretende ser o primeiro tipo, mas a falta de uma problemática real e a impossibilidade de inseri-la em um contexto político deixa a análise apenas até a metade. Mesmo assim, o longa não perde seu potencial de entretenimento, e é diversão garantida para os fãs da Jovem Guarda.

Minha Fama de Mau conta a história da fundação do programa de TV da Jovem Guarda e do movimento dos anos 60, visto principalmente pelos olhos de Erasmo Carlos, autor do livro no qual o filme se baseia. Relembrando a vida do músico desde sua infância e adolescência no começo dos anos 60 até o fim dos 70, o longa passa pelo encontro com Roberto Carlos, suas primeiras composições, a explosão da Jovem Guarda e a vida do músico depois do fim do programa. Além de trazer Roberto Carlos (Gabriel Leone) e Wanderléa (Malu Rodrigues) em papéis maiores, o longa diverte trazendo à tona personagens como Carlos Imperial (Bruno de Luca), Tim Maia (Vinicius Alexandre) ou a Candinha, em um aparição simpática da Paula Toller, recheando o filme de figuras familiares que preenchem como uma “Festa de Arromba”.

Minha Fama de Mau é esperto em sua estética. Na juventude de Erasmo, recursos visuais mais descolados, como referências a um imaginário dos quadrinhos, predominam. Já mais velho, o músico insiste em quebrar a quarta parede. Na sua maturidade e nos tempos pós-Jovem Guarda, o filme toma um formato mais tradicional, passando uma ideia de evolução de Erasmo que acompanha o ritmo do filme. Mesmo quando os recursos quebram o ritmo, a ideia de que o público está evoluindo junto com o protagonista funciona bem. Isso também é sustentado pela interpretação certeira de Chay Suede, que consegue transitar entre o garoto exibido e o jovem vulnerável. Em termos de elenco, aliás, Minha Fama de Mau acerta em cheio também com Leone e De Luca, que interpretam um tímido Roberto e o impiedoso Imperial precisamente.

Assim como a Jovem Guarda, Minha Fama de Mau ignora completamente o contexto político no qual se passa, o que poderia lhe dar um tom alienado, mas Lui Farias soube lidar bem com a limitação política do movimento. Existe um esforço real de focar a história apenas em seu personagem e suas tramas absolutamente pessoais, mas ao não entregar uma visão crítica, o psicológico do protagonista acaba raso. Quando não há reconhecimento do contexto, não há um retrato forte do declínio da Jovem Guarda associado às críticas, aos novos nomes da música ou a Tropicália na época. O filme busca inserir isso em uma breve cena de entrevista de Erasmo, mas a discussão é rápida e não cria uma relação com a depressão do músico. 

O longa evita tratar de brigas com Roberto Carlos ou qualquer confronto realmente significativo, e sem movimentos questionáveis e nem mesmo conflitos amorosos, o maior impasse da vida de Erasmo se reduz a um bloqueio criativo no pós-Jovem Guarda, e o próprio protagonista parece um coadjuvante em sua própria história, que sempre desemboca em soluções sustentadas pelo seu parceiro Roberto Carlos. Um dos resultados da trama de Minha Fama de Mau é a ideia que sem Roberto, Erasmo não seria ninguém. E se esta fosse a tese, talvez fosse mais proveitoso focar a história da Jovem Guarda na parceria, e não na visão parcial de apenas um deles.

Além disso, existem movimentos questionáveis de roteiro, principalmente em torno de suas personagens femininas. O filme foca em Roberto e Erasmo e por isso deixa Wanderléa, a terceira parte da trinca fundadora da Jovem Guarda, quase como pano de fundo. O medo de simplificá-la a interesse amoroso de algum dos dois, ou criar conflitos em relação a intimidade dos músicos com a vocalista, deixa a personagem perdida em sua própria história. Os papéis de Bianca Comparato, um compacto das diversas mulheres da vida de Erasmo, também acabam sem propósito, a não ser reduzir a importância das parceiras do músico.

A falta de problemática ou crítica em Minha Fama de Mau compensa com atuações e hits. O longa traz à tela hits como "É Proibido Fumar", "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo", "Eu Sou Terrível", e muitas outras, em belas adaptações e ótimos visuais, criando uma trilha sonora ótima. As performances musicais como um dos pontos altos do filme devem tornar Minha Fama de Mau um entretenimento garantido principalmente para quem já é fã da Jovem Guarda, mas a ausência de um conflito torna a história menos interessante para quem ainda não conhece seus protagonistas. 

Nota do Crítico
Bom