Por trás das mensagens importantes, Minari escolhe o conforto do relato pronto

Créditos da imagem: A24/Divulgação

Filmes

Crítica

Por trás das mensagens importantes, Minari escolhe o conforto do relato pronto

Elenco sobressai para dar vida ao filme autobiográfico de Lee Isaac Chung

Marcelo Hessel
22.04.2021
11h59
Atualizada em
22.04.2021
12h26
Atualizada em 22.04.2021 às 12h26

Drama de perfil discreto, Minari - Em Busca da Felicidade cavou um espaço no Oscar 2021 em momento oportuno, quando a pandemia do Covid-19 fez crescer os casos de xenofobia e violência contra asiáticos nos Estados Unidos. Esse contexto facilita ver o filme de Lee Isaac Chung como um emocionado relato universal sobre as dificuldades de adaptação de imigrantes pelo mundo, jornada sempre marcada pela esperança das redescobertas e do pertencimento.

No papel, Chung parte do específico em busca desse universal, porque escreveu o roteiro do filme com base em sua experiência de vida. Se o garotinho David é o coração de Minari - um elemento inclusive literal no filme, porque o filho da família Yi sofre de uma condição cardíaca que precisa ser vigiada o tempo todo - isso se dá primeiro porque Chung se espelha em David. O diretor também nasceu nos EUA, filho de pais sul-coreanos, que trocaram as metrópoles pelo meio do mato no Arkansas em busca de melhores oportunidades no solo americano.  

Na prática, porém, o que se vê em Minari não é tanto um trajeto que começa no específico e alcança o universal, e sim uma construção dramática que já trata o universal como ponto de partida, a priori. Como? Na definição do que cada personagem é, quem pode se tornar, que função desempenha no filme. Os papéis são os mais familiares possíveis: o pai obcecado em prover, a mãe insensibilizada pelo fim dos seus sonhos, a idosa destituída de autoridade, o filho pequeno que especula moralidades enquanto não se aterra no mundo.

De certa forma, Chung realiza um drama que está bem próximo de uma estrutura da teledramaturgia - nem tanto porque escolheu um núcleo doméstico para acompanhar, e sim porque os familiares de Minari estão ali, antes de mais nada, exercendo papéis pré-definidos pelo senso comum. Jacob está no limite de se tornar o Pai Violento e Monica, a Esposa Megera. Se Minari não leva seus estereótipos até o limite, não é exatamente porque os renegue, e sim porque escolheu para si, também desde o princípio, o lugar do bom gosto e do relato “sensível”. Extrapolar o estereótipo não seria de bom tom.

Ainda assim, a “novela” é inequívoca: os personagens estão fadados a cumprir as funções que lhe atribuíram, como empregados de chão de fábrica repetindo gestos maquinalmente. Um exemplo bem ostensivo disso é a construção de Paul como o fanático religioso da América Profunda; nesse personagem o filme condensa o olhar sobre o ambiente onde a família Yi se encontra, mas o roteiro não faz disso um conflito que pode tirar seus personagens do sonambulismo. Paul só arrasta sua cruz de um lado para o outro e é isso; aos outros personagens resta assistir, vai que haja naquilo alguma lição de vida.

Não é por acaso que Minari tenha iniciado sua jornada em premiações em 2020 a partir do Festival de Sundance, famoso por seu laboratório de roteiro que afina discursos, apara arestas de histórias e uniformiza jornadas dramáticas em busca dessa pretensa universalização da experiência. Lee Isaac Chung acaba fazendo um filme tão projetadamente genérico que até mesmo seus cenários parecem panos-de-fundo minimalistas: é sintomático que Jacob e Monica resolvam sua diferença diante de uma parede de pintura bege descascada no meio do nada. No fim, Minari poderia se passar em qualquer locação que tivesse uma clareira de grama alta e um estacionamento vazio.

Num filme então que elimina da equação qualquer especificidade que poderia ser contemplada na encenação (do roteiro à cenografia), resta ao elenco suprir essa falta. Partir do estereótipo pode ser até libertador para quem atua, porque qualquer sinal de excentricidade é entendido como um traço autoral, uma coisa autêntica. Isso explica por que Steven Yeun e Youn Yuh-jung acabaram indicados, respectivamente, ao Oscar de melhor ator e melhor atriz coadjuvante, embora ambos tenham em suas carreiras desempenhos melhores (Yeun manda muito bem em Em Chamas, enquanto Youn mostra melhor seu alcance para a vilania e a comédia nos filmes de Im Sang-soo e Hong Sang-soo).

Obviamente, Minari tem condições de tocar as pessoas, já o faz, e o Oscar pode ser uma forma oportuna de amplificar uma mensagem importante de empatia, numa época difícil. Mas isso não elimina o gosto amargo quando se percebe que uma história tornada universal by default está, na verdade, apagando memórias, legados e possibilidades - tudo aquilo que faz cada jornada de imigração ser única a seu modo. 

Minari - Em Busca da Felicidade
Minari
Minari - Em Busca da Felicidade
Minari

Ano: 2020

País: EUA

Duração: 115 min

Direção: Lee Isaac Chung

Roteiro: Lee Isaac Chung

Elenco: Youn Yuh-jung, Steven Yeun, Will Patton

Nota do Crítico
Bom

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