Cena de Meu Sangue Ferve Por Você (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Meu Sangue Ferve Por Você (Reprodução)

Filmes

Crítica

Meu Sangue Ferve Por Você encontra o ponto da breguice novelesca de Sidney Magal

Como seu biografado, filme é profundamente brasileiro na gambiarra

Omelete
3 min de leitura
05.06.2024, às 09H26.

Os personagens de Meu Sangue Ferve Por Você admitem mais de uma vez, ainda no primeiro ato do filme, que a música de Sidney Magal não era a mais prestigiada - ao menos, criticamente falando - de sua época. A própria Magali (Giovana Cordeiro), futura esposa do jovem astro (Filipe Bragança), confessa a ele inadvertidamente que prefere as baladas românticas de Roberto Carlos aos pastiches de flamenco pelos quais Magal ficou conhecido ainda nos anos 1970. É basicamente a maneira que o longa encontra de justificar sua própria existência, calcando o caráter popularesco e vanguardista (de uma forma talvez vulgar) do artista que tenta um pouco biografar, mas muito mais evocar em tom e discurso.

A aposta funciona principalmente porque a equipe de Meu Sangue Ferve Por Você entende que a sua inaptidão, sua gaiatice de quem está mexendo onde não deveria e duvida que você o impeça, é parte do que transformou Magal em uma presença tão duradoura na cultura pop nacional. Entre as influências hispânicas e europeias de sua música e de sua dança, o que Magal tem de mais brasileiro é a alegria despreocupada com a qual se entrega ao seu impulso antropofágico mais básico. E o trunfo do diretor Paulo Machline (Trinta), que também assina o roteiro com um trio de colaboradores (Roberto Vitorino, Homero Olivetto e Thiago Dottori), é precisamente capturar esse espírito em filme.

Isso significa que, em grande parte, Meu Sangue Ferve Por Você abraça a linguagem visual também popularesca da telenovela brasileira, com fotografia (de Marcelo Durst) e montagem (de Eduardo Pires de Vasconcelos) de mão leve, permitindo que as ideias mais extravagantes da produção convivam com o retrato do corriqueiro que é o habitat natural do folhetim. É um filme que captura a Salvador de 1979 a partir de tomadas quadradinhas do Elevador Lacerda e do Farol da Barra, mas que também abre caminho para números musicais exuberantes nas ruas de pedra do Pelourinho e nos becos onde se desenvolvia a vida noturna queer da cidade. Uma realidade higienizada, mas também extrapolada; pasteurizada, mas também temperada sem parcimônia.

As performances centrais do longa caminham na mesma linha, inclusive. Se Filipe Bragança arrisca transformar Magal em só mais um jovem galãzinho de novela, pelo menos ele traz um sorriso ingênuo convincente à tiracolo - embora isso não seja o bastante para limpar a barra do personagem, que afinal de contas está paquerando uma menina de 16 anos. É um “detalhe” do qual o filme tenta fugir, evitando definir muito bem a idade de Magali e escalando a carismática Giovana Cordeiro, quatro anos mais velha do que Bragança, para interpretar a moça. Por sorte, ela constrói uma química forte com Emanuelle Araújo, que interpreta a mãe de Magali, o que dá a deixa para Meu Sangue Ferve Por Você ser menos história de amor e mais melodrama geracional.

Identificando corretamente o impulso de liberação emocional que perpassa a música de Magal, o filme desenha a trajetória admitidamente ficcionalizada (um letreiro no começo deixa amplo espaço para “liberdades poéticas”) de seus protagonistas reais como linhas espelhadas de emancipação. Magali quer se afirmar como mulher diante do zelo opressor da mãe, e Magal quer se afirmar como artista sem a influência limitante do empresário Jean Pierre (Caco Ciocler, que tem o melhor número musical do filme). Debatendo-se nessas prisões metafóricas bem diferentes, um se apresenta para o outro como a rota de escape perfeita.

Essa é a história de encontro, ou talvez colisão, que Meu Sangue Ferve Por Você consegue contar. Talvez, diante de sua promessa de desvendar o romance transcendental que definiu a vida da celebridade em seu centro, ela decepcione. Por outro lado, pudera: fabular a própria vida, tentar transformá-la em um tango executado em trajes franjados e cravejados de lantejoula, sempre foi o modus operandi de Magal - e ninguém pode negar que essa transfiguração passa longe de ser perfeita. Mas tem algo mais brasileiro do que uma boa gambiarra?

Nota do Crítico
Bom
Meu Sangue Ferve Por Você
Meu Sangue Ferve Por Você

Ano: 2023

País: Brasil

Duração: 97 min

Direção: Paulo Machline

Roteiro: Paulo Machline, Thiago Dottori, Homero Olivetto, Roberto Vitorino

Elenco: Filipe Bragança, Emanuelle Araújo, Caco Ciocler, Giovana Cordeiro

Onde assistir:
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