Medley fica no limbo entre o indie e o popular
Texto truncado estraga a experiência de filme com boa performance de Mel Maia
Créditos da imagem: Mel Maia em Medley (Reprodução)
Difícil entender exatamente o que houve com o roteiro de Medley, adaptado por Keka Reis a partir de seu próprio livro, lançado em 2021. A paixão da escritora pela história é óbvia, e seria fácil culpar essa paixão por uma transposição de mídias truncada – o autor, eu argumentaria, é a última pessoa no mundo com objetividade para saber o que mudar quando se trata de uma adaptação como esta. Acontece que Reis não é qualquer escritora: o seu background profissional é, de fato, em roteiro para o audiovisual, acumulando créditos na TV (Descolados), streaming (Um Ano Inesquecível) e cinema (O Pergaminho Vermelho), passeando por infantojuvenil e adulto, animação e live-action, comédia e aventura.
O que aconteceu, então, para que Medley chegasse às telas com uma história tão confusa, tão sem forma, tão perdida dentro da própria progressão? Dá para culpar, talvez, uma montagem que, sob a supervisão da diretora Ana Luiza Azevedo (Antes que o Mundo Acabe), dá pouco espaço para certas emoções respirarem, e espaço demais para outras que não passam nem perto de serem tão interessantes quanto elas, dramaticamente falando. De qualquer forma, existe um desajuste aqui, uma jornada de personagem que é travada pelos piores instintos daqueles que a moldam.
Medley é a história de Lola (Mel Maia), uma jovem cuja relação com a mãe solteira, Catarina (Mariana Lima), chega a um ponto de quebra bem no começo de suas férias escolares. Revoltada, ela parte para a fazenda de um tio no interior do Rio de Janeiro, cenário onde começa um arco de transformação – se juntando à equipe de natação do local, e ganhando um interesse romântico na forma de Gabriel (Guthierry Sotero) –, mas também de revelação sobre o seu passado e o motivo da ausência do pai em sua vida.
O coração dessa trama, como Azevedo parece identificar bem cedo, requer um ritmo de coming of age contemplativo. A conexão de Lola com a natureza, a água, e os costumes singelos da cidade onde vai parar, são partes importantes dessa composição, e Medley brilha quando dá prioridade a elas. Ademais, apesar de soturna e introspectiva por natureza, Lola suplanta o arquétipo da adolescente birrenta, e Mel Maia se esforça admiravelmente para fazê-la uma personagem com base, cujas atitudes não vêm simplesmente da imaturidade, mas de uma bagunça psíquica tão legítima quanto a de qualquer adulto.
O problema é que Medley também sente uma necessidade incompreensível de apelar para o mínimo denominador comum. Na esteira do sucesso crescente das histórias teen baseadas em relacionamentos de idas e vindas, conflitos arquetípicos entre os gêneros, e por aí vai, o texto de Reis também se distrai com situações dramáticas artificiais, especialmente envolvendo o romance de Lola com Gabriel, que em pouco ou nada empurram a protagonista adiante. Evidência suprema da desimportância dessas concessões à novelinha adolescente é que elas nunca de fato têm uma resolução – Medley as coloca na tela como por obrigação, e as abandona com absoluta casualidade depois disso.
Acontece que, com só 1h30 para preencher, o longa aborrece por desperdiçar tempo com esses becos sem saída narrativos. O que eles fazem, efetivamente, é colocar Medley num limbo entre o charme indie que está no seu DNA – não só em sua história, mas até em seu tamanho, em sua lógica de produção – e o populismo que tenta tolamente alcançar. Fosse só um ou outro, seria muito mais fácil se envolver com ele.
Medley
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