Seu Jorge e Wagner Moura em filmagem de cena de Marighella

Créditos da imagem: Paris Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Marighella: Cinebiografia devolve humanidade ao guerrilheiro com retrato brutal

Dirigindo como ator, Wagner Moura defende personagens com devoção de um intérprete

Eduardo Pereira
05.11.2021
18h15
Atualizada em
05.11.2021
19h48
Atualizada em 05.11.2021 às 19h48

Wagner Moura dirige Marighella, seu primeiro filme comandando as câmeras, como faria um ator. Ou melhor, como faria o grande ator que ele é: em defesa franca e livre de julgamentos das verdades de seus personagens. Optando por uma linguagem visual repleta de planos fechados e médios, priorizando sempre a captação das reações de seu elenco para com aquilo que os cerca, ele insere o espectador de forma pungente na resistência proposta pelo grupo armado contra a ditadura militar brasileira Aliança Libertadora Nacional (ALN). E, além de dramatizar dois períodos-chave na vida do personagem-título — o político, escritor e guerrilheiro comunista marxista-leninista brasileiro Carlos Marighella —, ainda se propõe a tecer uma ode universal à luta contra a opressão. Para isso, mistura fato e ficção, dispensa de forma confessa a objetividade e extrapola os moldes de uma simples cinebiografia para fazê-la um manifesto artístico pela liberdade.

No cerne dos 155 minutos que compõem o longa-metragem, pulsa um coração voltado à desconstrução de silenciamentos históricos. Marighella, o homem, foi por anos reduzido a uma caricatura unidimensional. "Terrorista", "inimigo número um do regime militar", "subversivo", "extremista"; todos adjetivos atribuídos por décadas ao guerrilheiro, que visavam diminuir a complexidade de um corpo de trabalho político que foi muito além do combate à ditadura. Engajado desde os anos 1930 no ativismo democrático de esquerda, ele foi levado à prisão por diversas vezes, sim, mas não por ser um criminoso de carreira; sim por fazer oposição a figuras que historicamente ameaçaram, ou de fato violaram, as liberdades no país (do interventor militar Juracy Magalhães ao admirador confesso do fascismo italiano Getúlio Vargas). Após 1964, Marighella recorreu a táticas violentas contra a opressão militar que tomou poder no Brasil, mas não antes de ter atuado como deputado federal e ativista político para impedir que se consolidasse o golpe contra o presidente eleito João Goulart. Além disso, era um pai, um filho, um marido, um intelectual respeitado internacionalmente por figuras como o cineasta Jean-Luc Godard, e um patriota.

Assim, Marighella, o filme, busca usar o poder de influência do cinema para ampliar o escopo da percepção pública sobre seu personagem-título. Não se trata de lançar juízo de valor especificamente sobre as implicações morais e legais da luta armada pela democracia — até porque o guerrilheiro já recebeu anistia póstuma em 2012, em gesto oficial que reconheceu também seu brutal assassinato pelas mãos ensanguentadas da ditadura —, mas sobre quantificar o nível do sacrifício, da entrega e da convicção de homens e mulheres que se dispuseram a morrer pelo sonho de um Brasil livre da ditadura militar. Para isso, o roteiro escrito por Moura e Felipe Braga (Sintonia) se debruça sobre trechos da biografia Marighella - O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, do jornalista Mário Magalhães, ao mesmo tempo em que ficcionaliza personagens para reforçar essa temática.

Para isso, é fato que Moura trabalha com um maniqueísmo consciente na sua forma de retratar o embate da ALN com a ditadura militar e seus patronos norte-americanos. Quando escrevo que o diretor defende seus personagens como faria se os interpretasse, isso não se estende àqueles que são opressores. A eles, no que o filme claramente posiciona como reparação histórica contra aqueles que por décadas a manipularam, é reservado o papel de rasos e inescrupulosos vilões. Seus retratos estão à margem da complexidade e da capacidade de variância moral que caracteriza um ser humano, mas são imediatamente validados pela denúncia gráfica e por vezes desconfortável que o filme traz dos crimes do regime. A equação proposta é explícita: Carlos Marighella teve sua humanidade apagada dos livros de história por tratar no “olho por olho” a corrupção, os sequestros, os estupros, a tortura e os assassinatos promovidos pelo regime. Logo, os verdadeiros culpados por tudo isso não poderiam receber um pingo de consideração a mais de um filme sobre o guerrilheiro.

Funciona, mas Moura claramente admite, com essa escolha, alienar parcelas do público que ou não embarcarão em seu didatismo temático ou verão nos elementos ficcionalizados que ele emprega, um convite a questionar também o que é apresentado como fato. Ciente de que só deve conseguir “pregar para convertido”, entretanto, o diretor e co-roteirista encontra uma solução prática fascinante: abraça com coragem o preço da controvérsia e emprega soluções artísticas que reforçarão o impacto do filme sobre aqueles que, com ele, permanecerem engajados.

Assim, Humberto Carrão se torna o guerrilheiro Humberto; Bella Camero, a guerrilheira Bella; Guilherme Ferraz, o guerrilheiro Guilherme; até o pastor Henrique Vieira, ator de formação, dá vida ao padre aliado à ALN, Frei Henrique. Conforme borra as linhas entre atores e personagens, Moura explicita o elo entre a luta contra a ditadura e o progressismo que enxerga como essencial à classe artística. Como ator, ele sabe que isso informará às atuações de seu elenco uma mistura de sentimentos capaz de evocar performances sanguíneas e marcantes — o que faz. Enquanto diretor, usa isso para espelhar em tela o que quer despertar no público: a sensação claustrofóbica de estar a todo tempo sob a mira impiedosa de um regime opressor.

Cena de Marighella
Paris Filmes/Divulgação

Em papéis menos metalinguísticos, Luiz Carlos Vasconcelos e Herson Capri emocionam como o braço direito de Marighella, Almir, e o jornalista militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jorge Salles, respectivamente. Como o delegado fascista Lúcio, Bruno Gagliasso opta por ridicularizar o personagem com uma performance mais típica ao teatro, enquanto o ator Charles Paraventi rouba a cena em participação rápida como agente do governo dos Estados Unidos (e um grande cretino). Mas é Seu Jorge, escalado para o papel-título após saída de Mano Brown do projeto, o maior destaque.

Com uma imposição física altiva, aliada a um olhar lacrimoso que comunica as perdas pessoais advindas de uma vida entregue à luta por um ideal, Jorge alia imponência e vulnerabilidade em seu melhor trabalho no cinema até hoje. Na segunda grande cena do filme, que ecoa o primeiro terço de Moonlight (2016) para emendar a despedida entre o guerrilheiro e seu filho com sua prisão pela ditadura, em 1964, ele já deixa para trás qualquer memória do cantor famoso e passa a habitar integralmente o guerrilheiro. Além disso, a pele escura do ator fortalece o teor político do texto de Marighella, explicitando a identidade racial por vezes negada do guerrilheiro (filho de Maria Rita do Nascimento, mulher preta, e neto de escravizados africanos) e incorporando na crítica à opressão ditatorial a denúncia do racismo estrutural brasileiro.

Com um propósito artístico tão bem texturizado, acaba trabalhando contra o filme o fato de Moura emular muito da linguagem do cinema comercial norte-americano em suas grandes sequências de ação. A abertura do filme, um roubo ao trem filmado todo com câmera na mão e em plano-sequência, é um gancho irresistível para a história que ali se apresenta. Só que, à medida que se desenvolve o filme, esse retrato épico e grandioso de atos de resistência cria uma relação desconexa tanto com a representação naturalista, por vezes explícita e insistentemente desconfortável de violência, quanto com o desgaste emocional e físico que pontua os sacrifícios feitos por todos aqueles que, de forma mais ou menos pacíficas, se posicionaram contra a ditadura em seu auge.

Ainda assim, Marighella trabalha de forma tão fascinante as convenções da cinebiografia tradicional — retratando a figura histórica, mas extrapolando esse objetivo para também também refletir em sua estrutura e execução tudo aquilo que ela representa, ou deveria representar —, que é difícil não vê-lo como um dos grandes filmes de 2021. Polêmico, inquieto, independente e brutal, ainda que consciente disso; francamente revolucionário em suas intenções. Exatamente como Moura enxerga e defende seu personagem-título.

Marighella
Marighella
Marighella
Marighella

Ano: 2019

País: Brasil

Classificação: 16 anos

Duração: 155 minutos min

Direção: Wagner Moura

Roteiro: Wagner Moura, Felipe Braga

Elenco: Seu Jorge, Humberto Carrão, Adriana Esteves

Nota do Crítico
Ótimo

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