Sophia Lillis em Maria e João: O Conto das Bruxas

Créditos da imagem: Maria e João: O Conto das Bruxas/Imagem Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

Maria e João: O Conto das Bruxas

Filme de terror reinventa conto clássico como horror folk artístico

Arthur Eloi
20.02.2020
19h32
Atualizada em
21.02.2020
10h38
Atualizada em 21.02.2020 às 10h38

Por mais que tenham sido mais explorados no cinema infantojuvenil, contos de fada têm fortes conexões com o terror. As histórias, originadas na Idade Média, costumam ter viradas sombrias para pontuar o subtexto moralista ou um ensinamento sobre a dureza daquela realidade. “João e Maria” é um bom exemplo, e caiu nas graças dos fãs de terror pela presença de uma bruxa canibal que planeja devorar as crianças. Agora, após render os mais variados filmes, ganha um ar de horror artístico em Maria e João: O Conto das Bruxas.

O diretor Osgood Perkins (curiosamente, filho do Norman Bates original, de Psicose) pega a trama tão conhecida e a enquadra no gênero de folk horror, na pegada de sucessos recentes como A Bruxa (2015). O realismo histórico do longa de Robert Eggers têm clara influência aqui, especialmente quando elementos icônicos como a trilha de migalhas, ou a casa feita de doces, são deixados de lado. Não significa que não há elementos místicos, muito pelo contrário: folclore e bruxaria são o foco dessa versão. A origem da antagonista abre o filme, com uma garota doente desenvolvendo poderes após ser curada por uma bruxa e atormentando sua vila com eles. Desde cara a existência da magia das trevas é estabelecida, assim como seu teor subversivo.

Diferente da história original, Maria e João não é uma tragédia sobre a inocência, mas sim uma jornada de descobrimento. Maria, vivida por Sophia Lillis (It: A Coisa, Objetos Cortantes), assume o protagonismo. É ela que carrega o peso de cuidar de seu irmão mais novo, garantir sua sobrevivência quando se perdem na floresta, e que desconfia das boas intenções da vilã quando são acolhidos. Ao mesmo tempo, a bruxa tenta a garota não só com comida farta, mas também com a promessa de ensiná-la a cultivar um poder similar ao seu.

Com tom desesperançoso, o roteiro é carregado e adiciona camadas ao conto, mas é menos complexo do que imagina, e nunca vai além do texto superficial. De qualquer forma, Lillis responde a altura da atmosfera pesada, e entrega uma atuação sóbria, repleta de sofrimento contido. Já Samuel Leakey, que vive João, fica para trás, muito por causa do material que é lhe dado. O garoto é fofo, mas não segura a barra lendo o mesmo texto niilista da irmã mais velha.

Fica claro que a escrita não é o principal, mas sim a fotografia. Perkins tenta ao máximo se afastar da linguagem do horror comercial, e investe em imagens profanas e surreais. Em uma cena de pesadelo, por exemplo, Maria vê crianças sendo atraídas pela bruxa durante a noite, com a floresta tomada por uma aura neon vermelha. Mesmo momentos mais sutis usam planos e iluminação inusitados. Essa pegada folk sobrenatural é reforçada tanto pela excelente trilha sonora de sintetizadores por Robin Coudert, quanto pelo visual gótico da antagonista. O estilo é facilmente o destaque da obra.

Maria e João vem em um momento adequado, não só pelo sucesso do subgênero como também pela escassez de bons filmes de terror no começo de 2020. O longa não é nada do esperado, mas compensa a falta de sustos com um horror mais sutil, contemplativo e psicológico.

Nota do Crítico
Ótimo