Maligno

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Filmes

Crítica

Maligno

Com trama fraca, Maligno sofre com autossabotagem e não faz por merecer os bons atores que possui

Matheus Bianezzi
14.03.2019
19h00
Atualizada em
14.03.2019
19h32
Atualizada em 14.03.2019 às 19h32

A chance de um título traduzido perder a essência é sempre grande. The Prodigy, nome original do longa Maligno, reproduz um pouco melhor as pretensões do diretor Nicholas McCarthy. Acontece que isso, no final das contas, não importa muito: o filme não é maligno o suficiente para prender a atenção do espectador; e nem prodígio entre as inúmeras produções do gênero de terror. 

Tudo começa com um dos clichês clássicos desse segmento: uma mulher desorientada correndo em uma avenida durante a noite, claramente fugindo de algo. Ao ser encontrada por uma senhora, explica que teve sua mão decepada por um homem. A partir dessa introdução, cenas da atriz Taylor Schilling dando à luz num hospital são intercaladas com a dos policiais na casa onde a moça da estrada estava sendo refém. No momento em que os tiros atingem o peito do sequestrador, os gritos da criança recém-nascida e do homem se fundem em uníssono, dando a entender que uma espécie de reencarnação aconteceu. O filme não dá espaço para teorias. Conforme os anos passam na vida de Miles Blume (Jackson Robert Scott), o menino, que inicialmente era apenas inteligente demais para sua idade, demonstra traços de sociopatia e crueldade, tendo sua personalidade doce transformada por uma voz em sua cabeça. Embora nenhum personagem entenda de imediato o que está acontecendo, o mesmo não pode ser dito de quem está do outro lado da tela. 

O principal problema do longa se encontra num roteiro pouco inspirado aliado a uma edição que estraga diversos potenciais focos de tensão. Ao apresentar informações preciosas logo de imediato, a disparidade entre o conhecimento do espectador e dos personagens é gritante. Enquanto a família Blume ainda está tentando decidir se acha a possibilidade de possessão válida, todo o público já sabe que a suspeita é real e não acompanha o dilema dos pais. O mesmo acontece em relação a uma possível “cura” para o menino. Ao contar uma história de reencarnação semelhante logo no começo do filme, o Dr. Arthur Jacobson (Colm Feore) basicamente entrega todo o roteiro dos seguintes atos - e, de fato, pouquíssimas são as surpresas. Mesmo que a narrativa a ser contada não seja nem um pouco original, o material não é ruim, mas se sabota de uma maneira crucial. Com uma montagem diferente, o frágil roteiro poderia ter sido apresentado de uma maneira muito menos previsível. 

Diferente do script linear, as atuações são cheias de nuances - até onde as limitações permitem. Taylor Schilling, na pele de Sarah, a matriarca da família, entrega toda a expectativa que um nome como ela evoca. Aos já órfãos de Orange Is The New Black, a interpretação é um deleite. Dividida entre o amor materno incondicional e o medo perturbador de seu próprio filho, a atriz carrega boa parte do terror nas costas. Partilhando o fardo de carregar um filme regular até o fim, o ator mirim Jackson Robert Scott dá um show. Viver um papel que possui duas ou mais personalidades se prova um desafio até para atores experientes, como é o caso de James McAvoy em Fragmentado. Tomando as devidas proporções necessárias - afinal, décadas de experiência e um personagem bem escrito fazem toda a diferença -,  o jovem tem tanto sucesso quanto o premiado escocês. Ele altera não só suas expressões faciais com facilidade, mas toda a postura e atitude corporal típica de uma criança ou de um adulto impiedoso. Na categoria “criança amedrontadora e dissimulada”, Maligno é um cristal - não tão brilhante assim -  sem defeitos. 

A obra tem os artifícios técnicos de um terror; entrega os estereótipos para os fãs mais saudosistas - entre eles cachorros latindo pro vazio, calabouços mais assustadores que o normal, crianças falando línguas incompreensíveis, e assobios à la Hora do Pesadelo; e conta com atuações finas. Mesmo assim, se atrapalha ao não colocar o espectador em uma imersão total em nenhum momento, por ser mal escrita e editada. Além dos personagens pouco aprofundados tomarem as piores e mais genéricas decisões, no momento de sua consumação, elas se mostram tão previsíveis quanto entediantes de serem assistidas, tornando toda a experiência de noventa minutos esquecível.

Nota do Crítico
Regular