Hugh Jackman, Ray Romano e elenco de Má Educação

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Filmes

Crítica

Má Educação

Com uma performance incrível de Hugh Jackman, filme usa caso real de corrupção para estudar a desconstrução da figura do herói

Mariana Canhisares
19.05.2020
12h21

Um esquema fraudulento que desviou cerca de US$ 11 milhões de um distrito escolar pode parecer a trama perfeita para mais um filme de jornalismo investigativo, que romantiza a profissão e os dilemas de um repórter capaz de fazer tudo para levar a verdade ao seu leitor. Porém, a história na qual se baseia Má Educação é por si só mais interessante que o clichê. Afinal, o maior roubo de escolas públicas da história dos Estados Unidos foi revelado por uma adolescente no jornaleco da escola - ironicamente, por um estímulo inocente do homem responsável pelo escândalo.

Como se pode imaginar, antes da bomba estourar não havia nada de suspeito no distrito de Roslyn. Aliás, a região vivia um momento de absoluta prosperidade. Sob o comando do superintendente Frank Tassone, a instituição de ensino chegou ao Top 5 do ranking de melhores escolas públicas do país e obteve um inédito índice de aprovação dos alunos em faculdades da Ivy League, como Harvard e Yale. O bom desempenho trouxe consequências positivas não apenas à vida acadêmica dos jovens, mas também ao mercado imobiliário, que podia surfar na boa fase e cobrar preços altos nas casas dali.

Tassone era, portanto, uma figura bastante admirada na região. Atencioso, ele decorava os interesses de cada membro do corpo docente para ter assunto com todos eles nos eventos escolares, participava do clube do livro das mães dos alunos e, não obstante, dava discursos de incentivo aos jovens sempre que podia. Uma das felizardas que ouviu as sábias palavras do professor foi Rachel (Geraldine Viswanathan), que fora ao seu escritório apenas colher uma declaração sobre um projeto ambicioso da escola e acabou convencida de que poderia usar a obra para escrever uma matéria realmente interessante. E assim começou o pesadelo do superintendente.

Ao adaptar esse caso real para o cinema, o roteirista Mike Makowsky toma a sábia decisão de deixar a investigação amadora da estudante rolar no plano de fundo, enquanto foca na desconstrução da figura de Tassone, de herói a monstro. Sem apressar nenhuma etapa do processo, o filme derruba as máscaras do antigo professor modelo aos poucos, revelando cada um dos seus segredos e, em última instância, como o próprio Tassone se pegou acreditando nas suas mentiras.

A perspicácia da construção da trama de Makowsky, que estudou em Roslyn e viu a história se desenrolar com os próprios olhos, é potencializada pela performance de Hugh Jackman. Ao lado de Allison Janney, que interpreta a tesoureira Pam Gluckin, o ator mais uma vez prova o quão bom ele é. Ora solícito e amável, ora assustador e ardiloso, Jackman usa das sutilezas para representar a transformação e a eventual ruína do seu personagem, o que torna todo esse desenrolar ainda mais instigante.

Além de trabalhar muito bem a tensão no filme, dando a sensação de que se está diante de uma casa de cartas, o diretor Cory Finley não abre mão do humor em Má Educação. Inclusive, é por meio desse lado mais cômico que se cria a impressão de que Tassone é um profissional idôneo e aplicado, por exemplo. Esse aspecto quase paródico do filme dá um charme adicional à história e garante a atenção do espectador do começo ao fim.

Deste modo, embora o caso seja realmente escandaloso, a produção se propõe a mais que apenas lembrar o espectador da fraude ou exaltar a relevância do jornalismo investigativo. Na realidade, o filme de Finley brinca com a curiosa contradição que é ter alguém antiético, para dizer o mínimo, cuidando da formação dos seus filhos. Em outras palavras, o título Má Educação não poderia ser mais apropriado.

Nota do Crítico
Ótimo