Love Kills refaz Blade em versão lindamente estilizada do centro de São Paulo
Filme de vampiros nacional é peça pop de primeira, apesar do texto engessado
Créditos da imagem: Love Kills (Reprodução)
Não há sequer um plano em Love Kills que não seja lindo de se olhar. Sob a batuta da diretora Luiza Shelling Tubaldini (Perdida), esta adaptação da graphic novel de Danilo Beyruth transforma o centro de São Paulo em um palco operático encharcado de chiaroscuro e luzes neon, que captura com brilhantismo a atmosfera de estranha beleza que mora embaixo do concreto sujo da maior metrópole do continente. Love Kills abusa da fantasia, da estetização, para traduzir um espírito que escapa aos retratos mais literais que o seu cenário normalmente recebe na tela grande.
É, de fato, um trabalho virtuoso – e ainda incomum no cinema brasileiro. Ao lado de uma equipe técnica capaz, com destaque para o diretor de fotografia Jacob Solitrenick (Durval Discos) e a designer de produção Claudia Andrade (Marighella), Tubaldini faz um verdadeiro filme de quadrinhos nacional, com toda a alquimia pop que isso representa. Se o cinema de gênero, como um todo, ainda não é o nosso produto de maior destaque no audiovisual, o que dizer do cinema de HQs, que necessariamente precisa abraçar essa identidade com mais entusiasmo?
Love Kills é um passo e tanto para o desenvolvimento desse cinema, com sua mitologização de um espaço real através dos chavões de um subgênero consagrado do terror – no caso, a história de vampiros. Aqui, acompanhamos a sanguessuga Helena (Thais Lago), acomodada em uma rotina de dormir durante o dia e sair de casa à noite para encontrar sua próxima vítima pelas festas paulistanas. É quando ela começa a ser perseguida por um grupo de vampiros que criou, e ainda vira objeto de fascinação de Marcos (Gabriel Stauffer), um garçom humano que trabalha no café frequentado por ela todas as noites.
O texto, também assinado por Tubaldini, trabalha duro para estabelecer uma mitologia sólida para o vampirismo paulistano. Nessa construção entram personagens como o ricaço Victor (Flow Kountouriotis, uma presença fascinante em cena), amigo de longa data de Helena; Leander (Erom Cordeiro), um antigo amor tóxico da personagem; e Ronaldo (Marat Descartes), chefe irascível de Marcos no café. Eles e outros povoam um mundo que chega a nós pronto, bem resolvido em suas escolhas estéticas e narrativas… mas que ainda sente a necessidade de se explicar.
Por isso a rigidez dos diálogos, modulados num vocabulário e ritmo formais que não se traduzem bem da página para a tela. Para se aproximar da fantasia sombria, Love Kills assume uma fleuma declaratória, que pode parecer natural na boca de vampiros potencialmente centenários, mas que se choca com toda a estilização contemporânea do longa de uma forma incômoda. O resultado é um filme que mantém o espectador à distância, de certa maneira, o que inclusive sublinha a impressão que se tem dele como um empreendimento puramente estético – mais uma pintura pendurada na parede do que uma história, por assim dizer.
Mas não faltam filmes de gênero feitos lá fora que são assim, inclusive os de vampiro. O primeiro Blade, de Stephen Norrington, é um exercício de atualização gótica, integralmente preocupado em parecer cool e quadrinesco; Drácula de Bram Stoker é famosamente uma extravagância barroca de Francis Ford Coppola, com pouca ou nenhuma profundidade dramática; e até o Nosferatu de Robert Eggers se basta em sua grotesquerie pueril. Nesses e em outros títulos, como em Love Kills, a superfície fala por si mesma.
E está tudo bem: o que eles mostram, o que revelam, é muito mais forte do que qualquer coisa que eles possam nos contar.
Love Kills
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