Look Back de Koreeda brilha ao manter a magia e a sensibilidade da obra de Tatsuki Fujimoto
Filme live-action é tão emocionante quanto suas versões anteriores
Quando o live-action de Look Back foi anunciado, a pergunta era inevitável: o que sobrava para contar depois do longa de animação de 2024, que levou o prêmio de melhor animação da Japan Academy e já tinha capturado bem o tom do mangá? A resposta está no nome por trás da câmera. Hirokazu Koreeda, de Assunto de Família, conta que viu a capa do mangá numa livraria da estação de Shinagawa, atraído por uma figura de costas, leu tudo numa sentada e sentiu que não conseguiria seguir em frente sem escrever aquela história. O filme nasce dessa identificação, e ela é nítida na tela.
A trama segue Fujino, estudante popular e confiante, que desenha as tirinhas do jornal da escola e se orgulha de ser a melhor naquilo. Tudo muda quando o jornal passa a publicar também os desenhos de Kyomoto, colega reclusa e com ansiedade social severa, cujo talento natural incomoda Fujino. As duas se aproximam, e o filme acompanha a parceria até a vida adulta.
Enquanto alguns podem enxergar a fidelidade ao mangá como falta de ousadia, ela funciona aqui como homenagem a algo que já era arte desde o primeiro rascunho de Fujimoto. Koreeda não tenta corrigir ou reinventar o material. Ele o filma com o respeito de quem sabe o que tem em mãos, e a câmera observa as personagens sem invadir o espaço delas, deixando a emoção surgir da rotina, como nos melhores momentos da filmografia do diretor. A escolha de rodar em 35mm, em Nikaho, cidade natal de Fujimoto, em Akita, com moradores participando da produção, e de espalhar as filmagens por diferentes estações do ano, dá textura ao tempo que passa entre as duas.
Acompanhar a amizade e o crescimento da dupla como artistas é também admirar a paixão delas pelo ofício. Por isso chega a ser sedutor ver a evolução de Fujino e Kyomoto enquanto gastam a juventude dentro de um quarto, praticando desenho. As atrizes treinaram quatro meses de mangá antes das filmagens, e o filme dá peso ao trabalho solitário de sentar, desenhar e repetir, que é o verdadeiro tema da obra.
O live-action também tem a vantagem do tempo. Com mais minutos de tela do que o anime, o filme aproveita para expandir a relação entre as duas, e isso se reflete diretamente na angústia quando uma tragédia atinge essa parceria. Koreeda amplia alguns trechos da parte final e deixa certos pontos da narrativa mais legíveis, mas preserva a zona nebulosa entre realidade, memória e imaginação que faz de Look Back uma história tão dolorosa. A trilha de Yuta Bandoh e o desenho de som seguem essa lógica, sem sublinhar emoções que o filme prefere deixar vir sozinhas.
Com maestria, Koreeda potencializa tudo o que funcionou antes e leva uma história de amor e tragédia a um novo público, ciente de que a obra de Fujimoto é tão sensível e universal que merece ser vista de todas as formas possíveis. Para quem leu o mangá ou viu a animação, é um reencontro que respeita o que sempre fez essa história doer. Para quem chega agora, é um bom lembrete de que olhar para trás também é uma forma de seguir desenhando.
Look Back (2026)
Rukku Bakku
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