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Crítica

Cala a Boca Philip | Crítica

A miséria humana como vocação

Marcelo Hessel
06.05.2015, às 15H19
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37

Embora Cala a Boca Philip (Listen Up Philip, 2014) seja apenas seu terceiro longa-metragem, o diretor e roteirista Alex Ross Perry já é conhecido em festivais de cinema por suas comédias que usam a misantropia como combustível de humor. Aqui ele encontra na figura de Jason Schwartzman - ator que sabe jogar bem com a autodepreciação desde que despontou em Três é Demais em 1998 - um canal ideal de expressão.

Schwartzman vive Philip Lewis Friedman, e a ótima narração em off do ator Eric Bogosian já adianta que Philip é um misantropo metropolitano típico, daqueles que perdem a cabeça porque as pessoas andam devagar demais à sua frente na rua. Philip é escritor. Começa o filme como romancista estreante e termina como professor - toda uma jornada de ascensão profissional que, para infelicidade geral, não vem necessariamente acompanhada de redenções do espírito.

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"Minha vida ficaria mais difícil se as pessoas me vissem de forma diferente", defende-se Philip diante da ex-namorada (e diante da atual, diante do seu mentor, de amigos, diante do mundo) quando se vê forçado a repensar seu temperamento. O que há de irresistível no filme de Perry é que Philip não assume para si o tormento de viver alienado de tudo sem saber o custo disso. Não é um protagonista que ignora sua própria condição, pelo contrário: Philip sabe disso, e faz da sua miséria, ficção.

Para além de tornar Philip um tocante anti-herói trágico, então, Cala a Boca Philip é um filme que parece traduzir muito bem o que há de idiossincrasias na vida de renúncias de um escritor ficcionista. É curioso que em momento nenhum Perry nos diga do que tratam os livros de Philip. Não sabemos o que ele escreve, que histórias inventa. Temos acesso apenas ao julgamento: o segundo livro não é melhor que o primeiro, na opinião do autor.

Que uma pessoa se veja obrigada a viver nesse estado interminável de vigília, como se o mundo e as pessoas formassem um grande superego compartilhado, é o que torna Philip uma figura trágica tão interessante. Ao estender isso aos outros personagens principais (o roteiro dedica tempo a eles e é espertamente organizado como um falso filme-coral) e ao ampliar a geografia desse mundo (como se o superego se diluísse de Nova York até o campo e até a faculdade, num trajeto que permite aos personagens respirar e se conhecer), Perry torna a penúria de Philip uma história de todos nós, particularmente de como lidamos em conflito com ideais de sucesso e felicidade.

Cala a Boca Philip
Listen Up Philip
Cala a Boca Philip
Listen Up Philip

Ano: 2014

País: EUA

Classificação: 10 anos

Direção: Alex Ross Perry

Roteiro: Alex Ross Perry

Elenco: Jason Schwartzman, Elisabeth Moss, Jonathan Pryce

Nota do Crítico
Excelente!

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