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Lincoln | Crítica

Steven Spielberg acha um equilíbrio entre o solene e o desafetado e deixa Daniel Day-Lewis fazer o que sabe

Marcelo Hessel
24.01.2013, às 20H00
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H41
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H41

Fora dos Estados Unidos, as cópias de Lincoln estão sendo exibidas com uma cartela no início, um texto que explica a Guerra da Secessão em linhas gerais. Só então vem a cena de batalha que abre o filme de fato. Muita gente está achando que esse trecho de guerra foi editado também, porque tem só uns 40 segundos de duração. Não foi. É curto assim em qualquer lugar. A guerra, definitivamente, não é o foco de Steven Spielberg desta vez.

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É uma outra disputa que interessa o cineasta neste longa-metragem indicado a 12 Oscars sobre o décimo-sexto presidente dos EUA: a luta de Abraham Lincoln (Daniel Day-Lewis) pela votação da emenda constitucional que acabaria com a escravidão no país. A questão da abolição é um dos motivos da guerra civil, que opõe o Norte, comandado pela União, e os Confederados, os Estados separatistas do Sul cuja economia agrária depende dos milhares de negros escravos que seriam libertos pela nova lei.

Com base em Team of Rivals - livro que analisa o gabinete de governo do presidente, que Lincoln formou com seus ex-rivais de campanha - Spielberg e o roteirista Tony Kushner limitam a trama ao crucial ano de 1865, o quarto e último da guerra civil. Lincoln se vê num dilema: estender um pouco mais o conflito (a aprovação da abolição significaria o possível fim da guerra, o que botaria pressão na Câmara na hora da votação) ou encerrá-lo de vez e evitar mais morticínio (uma vez que os Confederados já procuram negociar uma rendição).

Esse dilema moral, que revela a força de estrategista político de Lincoln, sustenta o filme em seus 150 minutos de debates e negociações. Obviamente, o presidente não é o único defensor da abolição - bandeira que marcou a carreira de políticos como Thaddeus Stevens, vivido por Tommy Lee Jones - mas é Lincoln que responde pelas consequências, como a história deixou bastante claro no dia 15 de abril de 1865.

É evidente que, com essa premissa e nessas circunstâncias, a forma como Spielberg registra a atuação de Daniel Day-Lewis seria o nervo do filme. Ambos fazem um trabalho que fica a meio termo entre o solene e o desafetado. Na entonação de voz e na linguagem corporal, mais até do que na competente maquiagem que o envelhece, Day-Lewis cria um Lincoln palpável - podemos sentir o peso que os quatro anos de guerra adicionaram ao seu corpo. A forma como o ator se move, senta-se ou articula um discurso tem, ao mesmo tempo, nos gestos lentos e na voz fina falsamente frágil, uma dor, uma gravidade e um esperto senso de retórica.

Econômico nos close-ups e usando bastante os planos abertos, Spielberg basicamente fornece uma área útil para Day-Lewis ocupar. Quando o presidente está no meio de um grupo de pessoas contando suas histórias edificantes, por exemplo, a câmera quase sempre o pega em plano-médio, nem muito aberto nem muito fechado - porque fazer o close-up daria ao momento um excesso de dramaticidade que Spielberg visivelmente tenta evitar. Até a trilha cheia de refrões de John Williams, que toca desde a cartela inicial, está inesperadamente controlada aqui.

Ao mesmo tempo, a iluminação de cena é quase barroca. Em muitos momentos, a principal fonte de luz em salas escuras vem da janela, e a réstia de sol obviamente recai sobre o presidente. É como se Day-Lewis estivesse sob holofotes num teatro, o que valoriza o já notável trabalho corporal do ator. Essa combinação fica entre o solene e o desafetado porque a luz é de iconografia - ela ressalta a silhueta clássica, com o cavanhaque e a cartola - mas sob ela Day-Lewis permanece inabalado, com sua composição mínima, sua "atuação de câmara".

O peso dos gestos de Day-Lewis, os "holofotes" e os planos abertos, combinados, dão uma boa dimensão da solidão do poder. Spielberg capta isso muito bem com sua costumeira excelência técnica, e se Lincoln é um filme imperfeito é porque o diretor carrega no discurso em alguns momentos para fazer o paralelo com outro presidente isolado, Barack Obama.

Assim como Lincoln, Obama fez um gabinete com ex-rivais (Joe Biden, Hillary Clinton) e carrega uma bandeira impopular (seria o sistema público de saúde de Obama a nova abolição?). Cenas como a da discussão do orçamento da Casa Branca, porém, parecem encenadas apenas para forçar esse paralelo: Obama seria o idealista lincolniano de hoje, preocupado com o futuro, enquanto a oposição fica com as mesquinhezas dos gastos orçamentários.

À parte esses excessos pontuais, o Spielberg contido de Lincoln pouco parece o cineasta que se colocava contra a escravidão nos dramáticos A Cor Púrpura e Amistad. Ele faz um filme que sem dúvida sabe dar ao episódio da abolição a gravidade devida, mas não perde de vista o político pai de família, negociador de apoios e contador de casos. Como o próprio diretor diz, em entrevistas, não é preciso endeusar mais um presidente que já tem sua cara em todas as notas de cinco dólares.

Lincoln | Cinemas e horários

Lincoln
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Lincoln

Ano: 2012

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 153 minutos min

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Walton Goggins, Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, Lee Pace, Jackie Earle Haley, Jared Harris, Bruce McGill, Walton Goggins, Tim Blake Nelson, Boris McGiver, Adam Driver, John Hawkes, Joseph Cross, Peter McRobbie, Gulliver McGrath, Gloria Reuben, Jeremy Strong, Michael Stuhlbarg, David Costabile, Stephen Spinella, David Warshofsky, Colman Domingo, Lukas Haas, Dane DeHaan, Bill Camp, Elizabeth Marvel, Julie White, Byron Jennings, Richard Topol, Walter Smith, Dakin Matthews, Wayne Duvall, Bill Raymond, Drew Sease, John Hutton, Chase Edmunds, Gregory Itzin, John Lescault, Mike Shiflett, Gannon McHale, Ken Lambert, Thomas K. Belgrey, Mary Dunleavy, Armistead Wellford, Ted Johnson, Don Henderson Baker, Raynor Scheine, Todd Fletcher, Charles Kinney, Joseph Carlson, Michael Goodwin, Edward McDonald, Jim Batchelder, Gregory Hosaflook, Joe Kerkes, William Kaffenberger, Larry Van Hoose, C. Brandon Marshall, Christopher Boyer, S. Epatha Merkerson, Robert Shepherd, Grainger Hines, Skye Dennis

Nota do Crítico
Ótimo

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