Leite em Pó quase se afoga ao manipular entrelinhas para refletir sobre luto e reinvenção
Longa de Carlos Segundo se esquece de dar motivo concretos para acompanharmos sua história
Depois de dois curtas que projetaram seu nome internacionalmente — Sideral, indicado à Palma de Ouro em Cannes em 2021, e Big Bang, vencedor em Locarno no ano seguinte — Carlos Segundo chegava ao Festival de Gramado 2026 como um dos nomes mais aguardados da mostra competitiva. A estreia de Leite em Pó, seu primeiro longa de ficção, tinha tudo para confirmar essa expectativa. Em vez disso, entrega um filme que se perde na própria proposta: tão obcecado em dizer tudo pelas entrelinhas que esquece de dar ao espectador motivo para continuar acompanhando a jornada de seu protagonista.
O filme segue Vicente (Vinícius de Oliveira), quase 40 anos, ainda sustentado pela avó, obrigado a se virar sozinho depois que ela comete suicídio. Segundo evita qualquer estrutura narrativa convencional para contar essa trajetória, apostando no mistério como método. É uma escolha que parte de uma leitura sócio-política clara: Vicente é o retrato do homem moderno sem rumo, um pseudo-burguês que se acredita revolucionário sem nunca ter revolucionado nada, forçado agora a colocar os pés no chão porque sonho não paga conta. Quando recebe um diário que revela a verdadeira história da avó, e é confrontado com a imagem do avô, um militar machista e violento, o filme aponta para dentro: as próprias fragilidades de Vicente como herança de um sistema patriarcal que ele nunca quis enxergar.
A ambição temática é evidente e, no papel, interessante. O problema é a execução. Leite em Pó atravessa a linha entre mistério proposital e vazio narrativo. Tudo é tão subliminar, tão manipulado para que nada fique claro, que a história se esgota rápido demais. Não sobra força suficiente para sustentar o interesse na evolução de um protagonista que anda a passos lentos e, pior, desinteressantes.
Essa fragilidade fica evidente em subtramas que surgem do nada e não encontram espaço para respirar. A tentativa de Vicente de "salvar" uma cabeleireira presa em um relacionamento abusivo aparece sem qualquer construção prévia. O mesmo vale para sua "redescoberta sexual", que soa mais como dispositivo de roteiro do que revelação orgânica, já que a sexualidade do personagem nunca havia sido de fato muito explorada antes daquele ponto.
Há um contraste sintomático entre este longa e os curtas que consagraram Segundo: lá, a economia narrativa funcionava a favor do mistério; aqui, ao esticar o mesmo impulso por mais de uma hora e meia, o diretor expõe as costuras de um método que não estava pronto para o fôlego do longa-metragem.
É uma pena que, mesmo lidando com temas relevantes como luto, patriarcado e a falência de sonhos individuais diante da realidade, Leite em Pó nunca supere sua execução frágil. Fica a sensação de um filme que sabia exatamente sobre o que queria falar, mas não sobre como fazer o espectador querer ouvir.
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