Legalize Já - A Amizade Nunca Morre

Créditos da imagem: Imagem Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Legalize Já - A Amizade Nunca Morre

História do Planet Hemp pesa como drama real mas tem seu maior valor ao manter a magia viva

Julia Sabbaga
09.10.2018
17h28

A produção do filme que conta a história do Planet Hemp começou quando o diretor Johnny Araújo, responsável por clipes de Marcelo D2, ouviu o fundador do conjunto dizer que estava vivendo o sonho de outra pessoa, seu parceiro Skunk, que faleceu em 94. Tocado com a frase, Araújo procurou construir um filme que retratasse a carreira do grupo e, com ajuda de D2, escreveu o argumento de Legalize Já. Com o risco de apresentar uma visão unilateral da história, a cinebiografia do Planet Hemp tinha potencial para acabar em uma versão egocêntrica, mas resulta no oposto. Legalize Já – Amizade Nunca Morre é uma obra realista, mas tem grande parte de seu valor na relevância da figura de Skunk, não só por sua contribuição concreta à música, mas pelo misticismo de sua existência.  

O longa, dirigido por Araújo em parceria com Gustavo Bonafé, se passa no Rio de Janeiro do início dos anos 90, e foca na vida de Marcelo (Renato Góes), camelô vendedor de camiseta que batalha para arranjar dinheiro para pagar um aborto da namorada. Em um confronto com a polícia e uma trombada na rua, Marcelo conhece Skunk (Ícaro Silva), um artista com conexões misteriosas que se vira nas ruas gravando fitas musicais. Os dois iniciam uma parceria com o incentivo forte de Skunk, que é responsável por quase tudo; melodiar as letras de Marcelo, ajudá-lo a achar o ritmo, convencê-lo a gravar, arranjar shows e até levar a música ao rádio. Nisto, D2 é o lado resistente, que sente o risco de se aventurar no mundo musical e se conforma com um emprego como uma forma segura de conseguir dinheiro. Durante o longa, são diversas as vezes que Marcelo quer desistir. A parceria não acaba puramente pela insistência em seu talento por parte de Skunk.

Legalize Já é um filme quase preto e branco. Uma escolha visual que reflete a frieza do contexto dos dois protagonistas e cria uma atmosfera desconfortável, como se em nenhum momento de suas vidas a atmosfera fosse tranquila. As únicas cores vivas que aparecem em Legalize Já são nas telas de TV, que chamam atenção principalmente quando a dupla ensaia seus movimentos de palco assistindo clipes do Beastie Boys e encara a realidade que eles gostariam para si. Esta cena em especial é, também, um ótimo exemplo da atuação dos protagonistas, que funcionam como parceiros perfeitamente, tirando proveito do talento do outro e criando uma sintonia não apenas carismática, mas muito real. Góes, durante todo o filme, brilha como um camelô conformado que tem um grito entalado na garganta e a atuação de Silva só cresce à medida que o filme se desenvolve. Do começo, quando é apenas um malandro das ruas até o seu triste fim, a interpretação do ator é um dos elementos mais cortantes do drama.

É curioso ver como, para um filme em que o roteiro é baseado na visão de D2, Legalize Já traz uma visão fria do próprio Marcelo. Não apenas nas brigas dos dois, onde nada parece amenizado, mas também ao retratar o lado artístico de cada um. Pelo filme, Marcelo não seria nada sem o parceiro, que passa o fim de sua vida totalmente dedicado a fazer a banda explodir. A frase que catalisou o projeto tem sua verdade ecoando durante todo o longa, que funciona como uma dedicatória real ao talento que se foi precocemente.

Como uma cinebiografia musical, Legalize Já tinha tudo para cair nos clichês do gênero, e apesar de seguir uma narrativa familiar, como todo o drama e humor característico, o longa tem um brilho especial na figura de Skunk. O filme não tem a pretensão de explicar de onde ele veio, ou qual era sua história antes de conhecer Marcelo, até porque é uma trama contada do ponto de vista de seu parceiro. Mas isto não diminui seu valor e, pelo contrário, faz o personagem funcionar como um anjo, que soube tirar o melhor de Marcelo e criar uma das bandas mais importantes para o cenário nacional antes de sair de cena. O resultado de Legalize Já – Amizade Nunca Morre é um drama que sabe tanto refletir uma realidade pesada brasileira quanto deixá-la poética, com um elemento fantasioso essencial.

Nota do Crítico
Ótimo