Filmes

Crítica

Lanterna Verde | Crítica

Altos e baixos na estreia do herói galáctico da DC Comics

Érico Borgo
18.08.2011
19h00
Atualizada em
29.06.2018
02h41
Atualizada em 29.06.2018 às 02h41

De todos os personagens do primeiro escalão da DC Comics, o Lanterna Verde é o que tem o universo mais complexo. O super-herói, afinal, age ao lado de outros 3.600 defensores da paz na galáxia, a Tropa dos Lanternas Verdes. O escopo permite desde interações sociais na Terra até guerras espaciais entre milhares de combatentes, divididos entre facções multicoloridas que representam espectros cromáticos e emocionais.

Lanterna Verde

None

Lanterna Verde

None

Lanterna Verde

None

Na adaptação dessa vastidão às telas, o filme Lanterna Verde (Green Lantern, 2011) é extremamente bem-sucedido. O planeta Oa, o lar dos Guardiões da Galáxia (os criadores da Tropa), é imaginativo e detalhado, assim como seus ocupantes. No cinema, os Lanternas surgem em toda a sua variedade e alguns deles recebem bom espaço de tela, especialmenteTomar-Re e Kilowog, heróis criados por CGI através de dublês por captura de movimentos e dublados por Geoffrey Rush e Michael Duncan Clarke.

Outro dos mais importantes personagens da série, Sinestro (Mark Strong), ganha vida através de uma elaborada maquiagem que o transforma em uma cópia perfeita dos traços do brasileiro Ivan Reis, ilustrador que trabalha há anos com a DC nos quadrinhos. Strong entrega ao personagem a dualidade e a nobreza que o ator já demonstrou mais de uma vez no cinema, especializando-se em vilões fortes e carismáticos. Melhor ainda é Peter Sarsgaard, o Hector Hammond, que se entrega ao personagem com vontade, o tornando de longe o mais real do filme. Pena que lhe sobre tão pouco a fazer no terceiro ato, mais focado em outro vilão, o Paralax.

Mas se no design, na qualidade da computação gráfica, na adaptação da mitologia do personagem e na seleção de elenco o longa agrada, o mesmo não pode se dizer da história. Preocupados com a complexidade do universo que deveriam apresentar e em como torná-la mais palatável ao grande público (a abrangência é a maior preocupação do cinema comercial hoje), os produtores optaram pelo caminho da adequação formulaica da narrativa. Não seria um problema grave se isso fosse realizado impecavelmente, mas Hal Jordan, o personagem central, que guia toda a história, carece de lógica.

O herói é apresentado como o melhor piloto de provas da Ferris Aeronáutica, um que desafia a todo instante seus medos - tema central do filme -, mas a memória do pai, morto em um acidente durante um teste, é a barreira entre Hal e o que ele pode se tornar, o homem que pode ser. O problema é que isso é trabalhado com mão extremamente pesada pelo roteiro. Os conflitos de Hal ficam apenas na superfície e não fazem muito sentido (por que ele não teme voar até perder o controle mas tem medo de puxar a alavanca do assento ejetor?), e o diretor Martin Campbell, que deixou claro estar ali pelo tamanho do cheque (leia em nossa entrevista) e não tem qualquer afinidade com a obra original, nada faz como cineasta para mudar isso. O texto cria as situações de conflito para resolvê-las com falatório. Hal Jordan deixa a Tropa em Oa de maneira um tanto inexplicada e incoerente com sua apresentação e, ao invés de aprender lições sobre amadurecimento e responsabilidade a seguir (cadê o assassino do Tio Ben quando precisamos dele?), simplesmente ouve da ex-namorada, Carol Ferris (Blake Lively), em uma sequência tediosa, o que precisa para seguir adiante. Sermão de auto-ajuda super-heróica. Essa solução é repetida algumas vezes, com a obviedade do discurso sobrepujando-se aos recursos do cinema. Vilões adoram explicar seus planos, mas em Lanterna Verde essa é uma característica do grupo (que ganha até um narrador para deixar tudo ainda mais claro).

Ryan Reynolds, o intérprete de Hal, teria até sido uma boa escolha. Ele é ótimo para viver sujeitos levemente arrogantes como o personagem, que já passou por fases motivadas por esse sentimento. Mas parece que o peso da responsabilidade foi demais. A atuação de Reynolds é exagerada quando não deve e apagada quando ele precisa efetivamente assumir a responsabilidade pelo drama. Falta ao ator também o carisma necessário para levar um herói pouco conhecido ao grande público (ele passa longe de um Robert Downey Jr., afinal).

Completa a lista de equívocos o grande vilão do filme, Paralax. Aposta ousada dos produtores, por tratar-se de uma entidade/criatura que nos quadrinhos foi criada para arrumar erros editoriais da série, o monstro que se alimenta de medo é cartunesco, um equívoco de design e um oponente sem personalidade. Tremendo desperdício de potencial, especialmente se considerarmos que Hammond, que foi solenemente abandonado ao final, fora tão bem construído. Se houvesse uma espécie de fusão entre ele e a massaroca superpoderosa chamada Paralax teríamos uma ameaça verdadeira, uma fusão significativa dos problemas de Hal em nível galáctico (suas obrigações para com a Tropa) e terrestre (seus demônios interiores e o drama). Seria um desvio em relação aos quadrinhos, mas nada impediria que Paralax fosse extraído de Hammond depois, algo que vai ao encontro das propriedades "infecciosas" da entidade.

Recentemente, um poderoso executivo da indústria do cinema declarou que "história não importa" e que o investimento em marketing e efeitos é a força motriz de qualquer blockbuster. Se fosse mesmo o caso, Lanterna Verde teria enchido os cofres da Warner Bros. De qualquer maneira, existe o que salvar aqui. O universo está criado, há bons personagens estabelecidos e o gancho ao final é emocionante para qualquer fã. Há futuro para Lanterna Verde no cinema. Basta que um diretor mais interessado na obra original assuma o cargo. Pena que o estrago já foi feito... e não foi pequeno em termos de bilheteria.

Leia entrevistas exclusivas e artigos no Especial Lanterna Verde

Lanterna Verde | Cinemas e horários

Nota do Crítico
Regular