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Crítica

Lady Bird - A Hora de Voar | Crítica

Greta Gerwig faz estreia como diretora solo em filme sobre amadurecimento feminino

Natália Bridi
09.01.2018
14h13
Atualizada em
26.01.2018
14h48
Atualizada em 26.01.2018 às 14h48

Corroteirista e estrela de Frances Ha e Mistress America, Greta Gerwig assumiu a contragosto o posto de musa indie: a fama de nova-iorquina cool do mumblecore (subgênero “naturalista” do cinema independente) se sobressaía às suas contribuições por trás das câmeras. Lady Bird - A Hora de Voar, seu primeiro trabalho solo como diretora e roteirista, é o grito de independência desse rótulo.

Na jornada de amadurecimento de Christine “Lady Bird” McPherson (Saoirse Ronan), Gerwig constrói a sua marca como autora. Com uma história parcialmente autobiográfica, a diretora deixa pequenos pedaços de si mesma ao longo do filme, o que estabelece uma autenticidade impossível de ser emulada. São detalhes que preenchem cenas e diálogos para retratar com exatidão o processo da saída da adolescência e entrada na vida adulta no início dos anos 2000.

Lady Bird é dramática a ponto de inventar um nome para si mesma e constantemente cria expectativas que não encontram correspondência na realidade - da universidade que pretende cursar aos meninos por quem se apaixona. É o que leva a intermináveis discussões com a mãe (Laurie Metcalf), que sem ver além dos exageros da filha, deseja apenas evitar uma vida de frustrações. Todas as cenas entre Ronan e Metcalf são verborrágicas e viscerais - longos minutos de vozes alteradas seguidos por breves silêncios, que demarcam o peso das brigas. Há também situações de intensa cumplicidade, onde Gerwig explora a estranha lógica entre mães e filhas. No meio de mais um bate-boca, desta vez dentro de uma loja de descontos, o vestido ideal surge na arara: “É perfeito!”, exclamam as duas, terminando momentaneamente a discussão.

Esse é um filme sobre ansiedade adolescente, mas por uma ótica extremamente feminina. O desejo de ser amada, de crescer, de perder a virgindade, e a falta de paciência que leva ao erro, que enxerga algo que não está lá, e muitas vezes termina com um coração partido. Também é uma história sobre querer sair de casa para buscar um mundo para chamar de seu, e a rebeldia “sem causa” que facilita essa transição. Sentir raiva da mãe é mais fácil do que lidar com a culpa de deixá-la.

Gerwig trata tudo com senso de humor, mas sem construir piadas. São os absurdos da vida, e as tentativas de contê-los, que provocam o riso. A direção delicada busca naturalidade nas atuações, mas também beleza em momentos ordinários, o que se reflete na sua protagonista. Lady Bird é diferente das suas colegas de escola, ao mesmo tempo que é uma garota como qualquer outra.

A “sinceridade eleva uma obra”, conclui Gerwig em uma entrevista  e essa é a sua assinatura. Cada minuto de Lady Bird é uma declaração honesta sobre crescer, com todos os erros do processo, no lado dos pais e dos filhos. É falhando que se aprende, que se perde a ingenuidade, e se descobre, aos poucos, que a a sua mãe estava quase sempre certa.

Nota do Crítico
Excelente!