Kokurojo | Kiyoshi Kurosawa faz ótima adaptação de O Samurai e O Prisioneiro
Focando em intrigas de palácio, autor japonês faz sua estreia no cinema de samurai
Créditos da imagem: Festival de Cannes/Divulgação
Kanbei Kuroda (Masaki Suda) é só um mensageiro do lorde Nobunaga Oda quando ele entrou no castelo de Murashige Araki (Masahiro Motoki), um lorde que traiu Oda por razões desconhecidas e que, no fim da conversa, quebra com a tradição samurai pela primeira vez – mas não a última – em Kokurojo, novo filme do mestre japonês Kiyoshi Kurosawa. Ao invés de permitir que ele retorne para seu comandante, ou de lhe oferecer uma morte digna, Murashige prende Kanbei. Mais tarde, o samurai diz que não mata pessoas que lhe podem ser valiosas, mas a verdade vai além disso.
Adaptando fielmente o best-seller de Honobu Yonezawa (traduzido para inglês como The Samurai and the Prisoner, ou O Samurai e o Prisioneiro), Kurosawa divide seu filme em quatro capítulos: um para cada estação do ano – e um para cada crime que assola o castelo Araki. Em todos, Murashige busca o conselho de Kanbei, que sempre se mostra um grande estrategista e sábio, e ajuda seu captor a descobrir a verdade. E, também em todos, vemos como Murashige desvia do esperado de um samurai da época, particularmente no que diz respeito à morte. Ele não pune traidores com sua katana imediatamente, por exemplo. São atitudes que causam estranhamento em seu conselho de guerra, um grupo de homens já agitados pelo cerco que Oda começa.
O Samurai e o Prisioneiro acompanha os 10 meses deste cerco, dividindo-os em quatro contos sobre tradição, morte e honra. Um mestre formal, Kurosawa encena o passar deste tempo com uma abordagem contraditória que se aplica a tantos exemplos de sua carreira. O cineasta dirige ao mesmo tempo de forma econômica – aplicando com calma cada movimento de câmera e cada corte – e enriquecedora, já que suas composições continuam espetaculares, e ver seu olhar se transportar muito bem para um filme de jidaigeki – histórias situadas no Japão Feudal – é metade da razão para recomendar esta obra.
A outra metade pode ser atribuída à forma como Kurosawa desenrola o que são, essencialmente, quatro suspenses de crime. Entre assassinatos e roubos, os enigmas que cruzam o caminho do samurai são o veículo perfeito para o cineasta explorar tema – o quanto vale a pena se manter fiel ao dogma da época, se isso só trará morte? – e personagens. As conversas de Murashige e Kanbei logo se apresentam como o auge de O Samurai e o Prisioneiro, e a estrutura circular do roteiro significa que estamos sempre ansiando por este momento. Muitas vezes filmados com planos-sequência que não se anunciam, mas chegam até o espectador de forma desprevenida e eficaz, esses encontros revelam um relacionamento curioso entre os dois protagonistas.
Fica claro, logo, que ambos se respeitam, mas que a guerra os colocou de maneira inescapável em situações opostas. Kanbei, capaz de matar um homem influenciando-o a entrar em combate individual contra um adversário melhor, nunca aceitou sair do lado de Oda na batalha, e Murashige logo percebe que precisa da ajuda de seu refém para conseguir manter a ordem e, quem sabe, a sua própria vida. Esse zelo por viver custará caro ao senhor do castelo. Kurosawa não deixará que essas figuras escapem com facilidade dos costumes que foram entranhados neles.
Trata-se não tanto de uma tentativa de Kurosawa de desconstruir o cinema samurai estabelecido por seus antecessores, mas sim de um exame genuinamente curioso do comportamento de figuras reais que encontra nos mistérios da realidade o espaço para desenvolver ficção. É nessas brechas que o diretor, baseando-se na obra original de Yonezawa, explora suas ideias. Há lutas e ação em Kokurojo, mas nada é mais afiado neste longa do que a capacidade de seu diretor de desafiar aquilo que é esperado – dos samurais e dos longas que eles protagonizam.
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