Mesmo com Jenna Ortega brilhando, Klara e o Sol é mais um tropeço de Taika Waititi
Adaptação de Kazuo Ishiguro se perde em melodrama manipulativo e vazio
Taika Waititi foi um dos nomes mais celebrados do cinema na década passada. Enfileirando sucessos de crítica e público, o diretor neozelandês foi de produções modestas como O Que Fazemos nas Sombras e A Fuga para a Liberdade ao estrondo de Thor: Ragnarok e, finalmente, à consagração no Oscar com Jojo Rabbit. Dali em diante, a maré virou: Thor: Amor e Trovão decepcionou boa parte dos fãs da Marvel, enquanto a comédia dramática Quem Fizer Ganha passou praticamente despercebida. Agora, com Klara e o Sol, adaptação do aclamado romance do vencedor do Nobel Kazuo Ishiguro, o cineasta entrega o que talvez seja seu pior trabalho.
A ficção científica acompanha Klara (Jenna Ortega), uma “amiga artificial” em um mundo pós-Terceira Guerra Mundial. A ansiedade da androide para ser comprada logo chega ao fim quando encontra em Josie (Mia Tharia) a tutora de seus sonhos. A garota a leva para viver em um casarão afastado, ao lado da mãe, Chrissie (Amy Adams), e da governanta Melania (Rachel House), que inicialmente implicam com a presença da recém-chegada.
A premissa segue a cartilha clássica do “brinquedo novo” que estranha o novo lar, mas gradativamente conquista a família. O problema é a falta de sutileza com que Waititi conduz o processo, despejando o tom acelerado e verborrágico de suas comédias em uma trama que pede silêncio, pausas e introspecção. O próprio texto de Ishiguro repousa nesses respiros, sobretudo ao explorar a relação mística e quase religiosa que a protagonista desenvolve com o Sol.
Conceitos centrais do livro, como as máquinas poluidoras que cortam as ruas, a colheitadeira que ameaça o santuário imaginado por Klara e o colapso da internet — são abordados superficialmente, servindo apenas de pretexto para diálogos expositivos. Até mesmo a questão das modificações genéticas para “elevar” os jovens privilegiados vira mera chantagem emocional para comover a plateia com o sofrimento de Josie. Em um momento-chave em que o tema geraria reflexão — o encontro social entre os adolescentes modificados —, Waititi reduz uma potente crítica de classes a piadas sem graça com a esquisitice alheia.
Quem impede Klara e o Sol de afundar por completo é Jenna Ortega. A atriz, visada pelos holofotes desde a explosão de Wandinha, traz delicadeza suficiente para driblar a mão pesada da direção e a trilha intrusiva de Michael Giacchino. Embora componha uma Klara ligeiramente mais infantilizada do que a obra sugeria, Ortega transmite o fascínio, a inocência e a estranheza de quem descobre o mundo exterior e cativa com sua devoção ao sol, seus pedidos e uma jornada de descoberta dessa fé sobre algo que ela não entende, mas que a energiza toda vez que a luz toca sua pele.
O mesmo não se aplica a Amy Adams, que emenda mais um trabalho apagado em sua fase recente. Adams tenta conferir dignidade ao papel, mas o roteiro torna Chrissie refém de um maniqueísmo barato: força a antipatia do público contra uma mulher em luto, em vez de convidá-lo a ponderar sobre as pressões morais daquele universo.
Klara e o Sol não é Jojo Rabbit, mas Waititi pareceu esquecer disso. Ao forçar a delicadeza de Ishiguro dentro de um molde espalhafatoso, o diretor confunde tons e transmite a sensação de ter folheado apenas a orelha do livro. Oscilando entre ecos rasos de Eu, Robô e o sentimentalismo oitentista de O Homem Bicentenário, a obra não atinge o peso filosófico de Asimov nem a eficiência dramática de um clássico da Sessão da Tarde. Um deslize frustrante que, pelo brilho de Ortega e pela riqueza do original, merecia muito mais.
Klara e o Sol
Klara and the Sun
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