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Crítica

Kin

Scifi evoca O Exterminador do Futuro em pegada oitentista e sofre com problemas de casting

Marcelo Hessel
06.09.2018
14h42
Atualizada em
06.09.2018
14h58
Atualizada em 06.09.2018 às 14h58

A narrativa na indústria que já envolve os irmãos diretores Jonathan e Josh Baker é a dos talentos que não se venderam; uma década depois de fazer um nome no mercado de videoclipes, os dois teriam recusado ofertas de Hollywood e esperado o momento certo para fazer seu longa de estreia sem comprometer sua visão artística.

Lionsgate/Divulgação

O filme é Kin (2018), uma mistura de ficção científica e drama familiar urbano que acompanha Elijah (Myles Truitt), um menino negro de Detroit que encontra uma arma futurista num terreno abandonado e a partir disso entra numa aventura de fuga com um ex-condenado, Jimmy (Jack Reynor), filho mais velho do pai adotivo de Elijah. A geração dos Baker tem os filmes da Amblin como paradigma de aventura de matinê, e Kin tenta emular dos filmes oitentistas um espírito de resgate da inocência, ao mesmo tempo em que adere a uma visão de mundo menos ingênua, marca de ficções científicas como O Exterminador do Futuro (principal referência de Kin).

Logo fica claro que, por trás da narrativa da autenticidade de autor e da "espera do momento certo", Jonathan e Josh Baker realizam um filme que está muito bem inserido - e de certa forma acomodado - numa tendência que já se vê em filmes recentes com uma preocupação de gênero e de estatuto social. De Ataque ao Prédio, por exemplo, Kin busca o protagonista negro, a brincadeira com a ficção científica barata e um certo street cred que viria da estética neon e dos filtros escuros, do texto gangsta e dos personagens párias. De longas como Corrente do Mal e O Homem nas Trevas, os Baker aproveitariam a Detroit noturna deserta como ambientação para sua trama desesperançada de fim dos tempos.

Detroit se presta a esse papel, de qualquer forma, pelo menos desde RoboCop, e continua sendo o cenário ideal para representar um certo crepúsculo da civilização americana. Kin não inova nesse sentido, e o longa parece se concentrar mais numa demonstração de design de produção e de computação gráfica do que exatamente numa articulação mais particular do que seria ressignificar núcleos familiares como o de Elijah e Jimmy no mundo niilista de 2018. Entre o caráter social pós-tudo que Kin parece reivindicar para si e os prazeres do cinema de gênero que visivelmente são sua válvula de escape, o filme não consegue escolher direito que caminho seguir.

Se os irmãos Baker não conseguiram encontrar uma narrativa para si ao longo da criação do filme, poderiam ao menos ter pesado duas vezes as decisões de seleção de elenco. Os problemas de casting dificultam uma imersão mínima em Kin: Jack Reynor não parece ter passado um único dia na prisão, Zoë Kravitz faz a pior dança de uma stripper no cinema recente e James Franco nunca deixa de ser James Franco em cena, por mais que faça aquelas caretas de white trash pensadas para desconstruir sua imagem de galã. Quem acaba Kin melhor do que entrou é Myles Truitt, que dá a Elijah uma veracidade, num papel que poderia bem tê-lo acondicionado numa função étnico-social, e o menino se sai bem dessa.

Nota do Crítico
Regular