Kim Possible

Créditos da imagem: Disney Channel/Divulgação

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Crítica

Kim Possible

A nova aventura da heroína acerta em rir da bobeira das situações, mas comete deslizes ao discutir a amizade entre mulheres

Mariana Canhisares
24.03.2019
19h04

Kim Possible pode saber lutar e salvar o mundo como poucos, mas há lições na vida que só se aprende passando por experiências tão ordinárias quanto ir para a escola. Mais de dez anos depois do fim da série animada, a heroína volta à TV, agora em live-action, para enfrentar seus tradicionais adversários e as frustrações do Ensino Médio em uma aventura sobre amizade e identidade.

No intervalo entre missões, Kim (Sadie Stanley) se prepara para o primeiro dia de aula, determinada a não ser nada menos que perfeita na sua carreira acadêmica. Mas nem todos os planos e acrobacias mirabolantes poderiam ajudá-la a reverter os efeitos dos imprevistos. O único aspecto positivo parece ser a chegada de Athena (Ciara Riley Wilson), uma nova aluna que não economiza elogios e parece ser a amiga ideal para Kim. Porém, a partir do minuto que a novata começa a se mostrar mais habilidosa que a protagonista, os problemas ressurgem. E, em meio ao caos da adolescência, Kim precisa lidar ainda com a fuga de Dr. Drakken (Todd Stashwick) da prisão e seu novo plano maléfico.

A ideia de discutir a parceria e a competição entre mulheres com uma nova geração é interessante e muito bem-vinda. No entanto, a experiência que o filme entrega é cheia de ruídos, capazes de distorcer as boas intenções dos diretores Zach Lipovsky e Adam B. Stein e dos roteiristas Josh A. Cagan, Mark McCorkleRobert Schooley. Enquanto Kim é capaz de amadurecer e estender a mão para Athena, entendendo o real significado da amizade, o mesmo ensinamento não a faz mudar em nada sua antiga rivalidade com Bonnie (Erika Tham) - que, no fundo, se resume à popularidade -, nem aprofundar seu relacionamento com Ron (Sean Giambrone). Afinal, a relação com seu melhor amigo chega a ser tão superficial quanto a bajulação inicial da nova personagem.

Quando o assunto é identidade, Kim Possible comete deslizes semelhantes. É forte a mensagem de que ninguém é definido pelo o que faz ou o quão bem o faz e, por isso, não há problema em não ser a melhor em tudo. Mas, o grande momento de provação da heroína, em que ela abre mão de ser o centro das atenções, é justamente quando é necessário um sacrifício. Assim, deixar a tarefa para outra pessoa acaba sendo mais egoísta do que de fato um momento genuíno de aprendizado. Logo, ao final, a sensação predominante é de que a protagonista não teve uma evolução significativa após essa aventura.

Por outro lado, em uma trama tão centrada nas suas personagens femininas, é muito divertido ver a confiança da heroína, assim como ela lutando ao lado da mãe e da avó contra a poderosa Shego (Taylor Ortega). A naturalidade no retrato da paternidade e da aceitação das diferenças também são aspectos bastante positivos. Mas, o grande acerto do longa certamente está em rir da bobeira.

Tanto Sean Giambrone, quanto Todd Stashwick cumprem muito bem seus papéis de alívios cômicos, se entregando por completo para as situações ridículas em que Ron e Dr. Drakken se metem. Porém, o grande destaque é justamente a grosseria e acidez da Shego de Taylor Ortega, que cria quebras de expectativa interessantes ao longo da narrativa.

A comédia, aliada às muitas referências à animação, é a razão para que o live-action de Kim Possible seja uma experiência tão divertida e nostálgica para os fãs antigos da personagem - mesmo com as alterações ruins na música-tema da série. A expectativa é que, com a brecha deixada para uma sequência, talvez a heroína ganhe um novo capítulo com uma mensagem mais bem-acabada. Até porque Kim merece conquistar uma nova geração com seu otimismo, determinação e, claro, piruetas.

Nota do Crítico
Bom