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Kill Bill: Volume 2 | Crítica

Explode coração!

Marcelo Hessel
07.10.2004, às 00H00
ATUALIZADA EM 19.04.2020, ÀS 17H10
ATUALIZADA EM 19.04.2020, ÀS 17H10

Em 1997 o nerd tentou crescer. Como os dois filmes anteriores de Quentin Tarantino, Jackie Brown prestava respeito ao imaginário dos anos 1970 - no caso, a onda negra da blaxploitation - mas sinalizava uma tentativa de amadurecimento. No lugar dos piadistas caricatos que matavam por acidente, entrou a serena aeromoça vivida por Pam Grier. A crítica e parte dos fãs não gostaram. Afinal, era um drama de alforria feminina dentro do cômico universo machista que todos aprendemos a idolatrar.

Tarantino sentiu o baque e ficou seis anos sem filmar. Aprendeu a lição. Os dois Kill Bill são uma segunda tentativa de transição. De novo, uma história feminista. De novo, uma personagem sensível, intrusa na sanguinolenta picotagem do cineasta. Por que desta vez deu certo? Em 1997 ele não tinha a Noiva Uma Thurman.

Em março de 2004, algumas semanas antes do lançamento de Volume 1 (2003), o crítico Michel Laub já percebia na revista Bravo! a presença dela. "Movida por uma razão nobre, o instinto materno ferido; falando uma linguagem econômica, que não desperdiça uma frase sequer; transpirando uma sabedoria cosmopolita, respeitosa com tradições alheias - a "noiva" é uma criatura oposta a quase tudo o que se apontou até aqui como típico do seu criador", diz ele. Laub defendia que a personagem podia até ter algo de Uma, mas tinha pouco de Quentin.

Agora, diante do Volume 2 (2004), descobrimos que a Noiva tem, sim, muito de Uma - atriz cuja gravidez o diretor esperou pacientemente acontecer antes de filmar. Exatamente por ver a sua musa real e atual namorada espelhada na ficção é que Tarantino amadureceu.

Explode coração!

Se o frenesi da primeira parte, recoberta de dezenas de corpos mutilados, dava pouco espaço para a introspecção, o espírito bandoleiro e crepuscular da segunda, vingança digna dos melhores faroestes, põe a mulher no seu devido altar. O filme é uma declaração de amor. Uma profusão de sexualidade que vai desde símbolos fálicos - a flauta de Bill (David Carradine) e a lanterna no caixão são dois emblemáticos -, passando pelo inegável sadismo do mestre chinês (Gordon Liu), até a famosa devoção do diretor pelos dedos tortos dos pés de Uma.

Repare que ela não é mais o fantoche de 1994 que dançava twist e levava injeções de adrenalina no peito. O titereiro teve que abrir mão do controle, dar vida à Noiva. Ela se transforma, assim, no personagem mais humano da vasta galeria bizarra de Tarantino. E isso pode soar estranho aos fãs - não se sinta ranzinza se preferir o espetáculo visual do Volume 1 - mas representa o grande salto do cineasta em direção à verdadeira autoralidade.

Seis anos de jejum deixaram-no inquieto. Não estranhe se Tarantino tropeçar na prolixidade, tentar dizer tudo ao mesmo tempo. No Volume 2 ele encavala músicas, uma atrás da outra, sem a parcimônia usual, introduz dispensável discurso nerd sobre super-heróis no momento mais inoportuno e, inclusive, não consegue se decidir entre três letreiros diferentes no fim do filme. Mas a sua homenagem a Uma é certeira. Basta a cena do choro final para perceber o bem que a paixão faz a esse homem. Explode coração!

Leia também: Nós Vimos Kill Bill - Vol.2

Kill Bill : Volume 1
Kill Bill
Kill Bill : Volume 1
Kill Bill

Ano: 2003

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 110 min

Nota do Crítico
Excelente!

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