Justino: Nos Bastidores do Reino é uma potente denúncia contra os manipuladores da fé
Christian Malheiros e Caio Blat brilham em filme de José Eduardo Belmonte
Existe um tipo específico de violência que só se enxerga de dentro: a de quem entrega a própria fé a alguém que promete salvação e devolve controle. É esse o território que José Eduardo Belmonte escolhe para contar a história de Mário Justino, e é também o que torna Justino: Nos Bastidores do Reino um dos filmes mais necessários da Mostra Competitiva do 54º Festival de Cinema de Gramado.
Baseado no livro de mesmo nome, o longa acompanha a trajetória de Justino desde a adolescência, quando encontra numa poderosa igreja neopentecostal a chance de escapar da pobreza, até sua ascensão meteórica e a queda que o devolve, décadas depois, ao ponto de partida para acertar contas com o próprio passado. Mas o que o filme entende, e entende bem, é que a história de Justino nunca foi só sobre religião. É sobre como a fé de alguém vulnerável vira ferramenta nas mãos de quem enxerga nos fiéis uma catapulta social e financeira.
Christian Malheiros carrega o filme com uma atuação vibrante e sincera. Ele entende que Justino não é um herói nem uma vítima passiva, mas um homem em contradição constante consigo mesmo. Como homem negro e homossexual dentro de uma doutrina que nega sua própria existência, ele se vê diante de um abismo de autoaceitação que o filme não suaviza: essa negação o quebra de várias formas, mais de uma vez, e o empurra para o vício em drogas.
É nesse ponto que o roteiro de Belmonte acerta mais: ao recusar-se a poupar detalhes da vida real de Justino, ele constrói também um retrato do Brasil entre os anos 1980 e 1990, um país em ruptura com a ditadura e ainda em busca de identidade própria, tanto quanto seu protagonista.
Do outro lado dessa equação está Caio Blat como o Pastor Azevedo, alter ego do bispo Edir Macedo, cuja história real também alimenta o roteiro. É outra atuação louvável, e a escolha certeira de Belmonte foi não construir um vilão de arquétipo. Azevedo sedimenta seu poder pela sedução e pelo carisma, não pela vilania explícita, porque ele precisa ser crível: na vida real, existem muitos pastores tão sedutores e tão nocivos quanto ele.
Vale destacar o esforço de produção por trás da reconstrução de época: o longa foi rodado entre São Paulo e Bahia, além de Portugal, e recriou até as cenas de Nova York coberta de neve em Salvador, no calor do verão baiano, com camadas de sal espalhadas para simular a paisagem congelada.
Em ano eleitoral, Justino chega como um filme que questiona a fé e a manipulação em torno de Deus sem nunca diminuí-la. É uma denúncia que honra a história de Justino com a mesma coragem do livro que a originou, e que deveria incomodar qualquer um que já confundiu devoção com obediência cega.
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