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Crítica

Justin Bieber - Never Say Never 3D | Crítica

O legado bieberiano em documentário musical feito sob medida para as fãs apaixonadas

Érico Borgo
24.02.2011
18h00
Atualizada em
06.11.2016
15h00
Atualizada em 06.11.2016 às 15h00

Meu problema com supercelebridades pop começou quando, na minha festinha de aniversário de 7 anos, notei o desaparecimento repentino de todas as meninas convidadas. Intrigado em minha camisa azul escura com palmeiras brancas, bermuda combinando, percorri a casa apenas para descobri-las aglomeradas e histéricas diante da televisão. No programa do Raul Gil, o Menudo cantava e dançava, sem parar, e pedia que elas não se reprimissem.

Na época, eu desconhecia que não era o primeiro nem seria o último menino a ter que dividir atenções do sexo oposto com sujeitinhos rebolantes de visual afetado, músicas falando de amor puro e namoros inocentes. Vinte anos antes, os Beatles - com seus terninhos e cabelos bizarros - já haviam enlouquecido as fêmeas jovens do planeta. Monkees, Polegar, Backstreet Boys, N*Sync, Hanson... os fenômenos da música alastram-se geração após geração, tirando as meninas das festinhas.

Justin Bieber - Never Say Never 3D

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Justin Bieber - Never Say Never 3D

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Justin Bieber - Never Say Never 3D conta a história da mais nova dessas atrações midiáticas musicais de cabelo estranho, a primeira delas a surgir apadrinhada pelo público pré-adolescente na Internet. O documentário musical começa na infância de Justin Bieber, em uma cidade pequena do interior do Canadá, e mostra como o menino demonstrou aptidão musical desde cedo. As imagens do infante batucando com ritmo e propriedade na cadeira da cozinha, aos dois anos de idade, não poderiam dar melhor resultado, já que desarmam seus detratores com prova incontestável de talento. Nesse aspecto, o filme que celebra a breve vida e obra bieberiana é interessante. Na tela, a cadeira da cozinha vira uma bateria plástica e, aos oito anos de idade, dá lugar a uma Pearl profissional, que ele ataca com entusiasmo e habilidade. Aos 11, Bieber já cantava e tocava violão na rua, "atrás dos seus sonhos", algo que o filme martela insistentemente. Fica difícil odiar - por mais que seus pares tenham se colocado no meu caminho no passado - um moleque tão apaixonado por música.

O longa, produzido pela equipe e a gravadora do garoto, relembra as histórias do início de sua carreira - muitas vezes com imagens em baixa qualidade, de handy cams e até mesmo celulares, na melhor tradição do YouTube. É impossível dissociá-lo do portal de vídeos que foi sua plataforma de lançamento, algo que o longa faz questão de lembrar mais de uma vez.

Nesse território conhecido, as meninas devem enlouquecer do início ao fim de Never Say Never 3D, mas é surpresa que o mesmo aconteça também com suas mães, já que o filme cerca Bieber de cuidados e assepsia familiar. E tome choradeira quando a família do popstar reza junta, se abraça, brinca e se beija... o tempo todo.

Para qualquer pessoa disposta a enxergar nas entrelinhas, porém, há determinadas cenas - manipuladas pela edição - que inocentemente entregam que nem tudo são flores na Casa dos Bieber. O pai, por exemplo, entra e sai como uma alegoria, apenas para mostrar que existe. Basta observar a linguagem corporal do garoto perto dele e a cara da mãe, referindo-se a como criou o filho sozinha, para entender que há algo muito mal contado aí. O close up na cara do pai, chorando no Madison Square Garden, é quase covardia. Estaria ele orgulhoso do filho ou - imagino eu - lamentando os milhões que perdeu ao deixá-los?

Entremeada ao histórico de Bieber e inúmeras canções, Never Say Never 3D conta ainda uma historinha sobre o Everest de qualquer artista, a preparação para o show no Madison Square Garden, icônica casa de espetáculos nova-iorquina. "Só os grandes lotam o Garden", explica o empresário de Bieber. "Conseguirei isso em um ano", retruca o cantor.

Não é spoiler dizer que ele conseguiu (em 1 ano e 3 meses, com vendas esgotadas em 22 minutos), então o indispensável "arco dramático" do filme passa a ser a saúde do jovem astro e a vermelhidão da garganta, seu grande inimigo. Não é exatamente uma antagonista empolgante, mas as fãs devem se compadecer com as broncas dos treinadores e as visitas ao médico. O palito na goela, afinal, é intragável para qualquer um.

O filme também não merece ser chamado de documentário ao apenas sugerir problemas do garoto, como a declaração de que ele "às vezes gostaria de ter uma vida normal", e esquivar-se de qualquer investigação a respeito do a fama faz com um caráter em formação ("Esta É sua vida normal!", devolve enfaticamente a preparadora vocal).

O problema é potencializado quando a edição coloca o seguinte depoimento do superprodutor L.A. Reid a respeito de Bieber: "Quando o vi pela primeira vez tive certeza que estava diante do Macaulay Culkin da música!". Ora, todo mundo sabe o que aconteceu com Culkin... e com Drew Barrymore, Lindsay Lohan, Britney Spears, Rafael Ilha... O próprio cantor parece saber disso ao pedir à família "não me deixem perder minha juventude". Mas o que está sendo feito para que isso não aconteça? De olho no dinheiro das fãs (e com os ingressos inflacionados de um 3D convertido nojentíssimo), Never Say Never é só ilusão e cantoria, uma casca polida.

"Não me deixem perder minha juventude"? Lamento, Bieber, mas esse trem já deixou o Canadá faz tempo.

Justin Bieber - Never Say Never 3D | Cinemas e horários

Justin Bieber - Never Say Never
Justin Bieber - Never Say Never
Justin Bieber - Never Say Never
Justin Bieber - Never Say Never

Ano: 2011

País: EUA

Classificação: LIVRE

Duração: 105 min

Direção: Jon M. Chu

Nota do Crítico
Regular

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