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Jurassic World: Reino Ameaçado | Crítica

J.A. Bayona traz olhar mais particular a uma série com tendência ao esgotamento

Marcelo Hessel
05.06.2018
18h02
Atualizada em
27.06.2018
11h24
Atualizada em 27.06.2018 às 11h24

A gente de Hollywood gosta de professar sua preferência por histórias "character driven", narrativas focadas nas jornadas dos personagens, mas não é todo remake/continuação que tem esse espírito. Star Wars se provou renovado com Rey, cujo arco carrega a nova trilogia, mas Jurassic Park, que sempre foi um filme de atrações, não tem a mesma vocação para o "character driven".

Isso pode explicar porque os filmes da série tendem a esgotar seu potencial com mais rapidez; na época de Jurassic Park 3, a adição dos pterodátilos não foi suficiente para injetar a originalidade que a franquia precisava para se manter por mais tempo. Depois do "requel" de 2015, agora Jurassic World: Reino Ameaçado tenta contornar o perigo do esgotamento. A escolha por J.A. Bayona como diretor traz um olhar novo, mais próximo do horror de fantasia, mas a repetição de situações e a franca precariedade da dramaturgia novamente dão indícios de que a série tem dificuldade em se reinventar.

As batidas são mais do que conhecidas: grupo revisita a Ilha Nublar apesar dos avisos, encanta-se primeiro com o brontossauro pacato (que é sempre descrito como fêmea) daquele primeiro maravilhamento de Jurassic Park, depois a maldade dos homens se revela (a figura do caçador de colete cáqui é tão batida quanto a do herói vivido por Chris Pratt), mais tarde o perigo alcança as crianças, para nos lembrar dos nossos medos infantis (Bayona não deixa de ser um dos incontáveis filhotes do cinema de Spielberg). Embora não tenha a mesma obsessão pelo fan service autorreferente de Jurassic World, esta continuação não consegue fugir das viradas consagradas nos filmes anteriores.

Isso inclui a chegada dos dinossauros ao mundo dos homens, como visto em O Mundo Perdido. Embora Bayona visivelmente torre meio orçamento na cena da erupção da Ilha Nublar, o filme consegue manter seu suspense e o interesse do espectador quando a ação se transfere para fora da ilha depois. O cenário da mansão no clímax lembra um castelo medieval de fantasia - com direito a janelões, parapeitos, um quase dragão e a contraluz da Lua em noite nublada - e Bayona mais uma vez realiza um terror contemporâneo que dialoga com as fábulas de horror europeias, seu ponto forte em filmes como O Orfanato e Sete Munitos Depois da Meia-Noite.

A escolha feliz por conciliar animatrônicos e computação gráfica torna os animais mais convincentes do que no longa anterior. O cuidado no design, porém, assim como o plano-sequência submerso e as câmeras arrojadas de ponta-cabeça, não são suficientes para dar mais fôlego à narrativa de Reino Ameaçado. A mão pesa em arcos dramáticos sem substância (deve ser a primeira vez no cinema que um dinossauro chora) e os realizadores dedicam sua atenção a questões sintomáticas e não a problemas de fundo: ao invés de tornar as dinâmicas de gênero e geracionais mais atuais, por exemplo, a câmera de Bayona fica de birra mostrando (em três close-ups diferentes) Bryce Dallas Howard de botas, só para dizer que ela não está mais usando salto alto como em Jurassic World.

Depois que a última reviravolta - uma subtrama que o filme supervalorizava desde o começo com o mistério da fotografia - é entregue pelo vilão sem qualquer consequência para a trama, definitivamente fica claro que este Jurassic World 2 não é um filme de personagens (humanos). Resta a esperança por novos olhares com alguma particularidade, como o de Bayona. E afinal, se Jurassic World vai aceitar sua vocação para o cinema de atrações, onde estão os benditos dinossauros com tiros lasers que tanto queremos? (Raptor guiado por mira laser não conta.)

Nota do Crítico
Bom