Judy: Muito Além do Arco-Íris

Créditos da imagem: Reprodução

Filmes

Crítica

Judy: Muito Além do Arco-Íris

Dramas de Judy Garland e Renée Zellweger se misturam em cinebiografia sentimental

Natália Bridi
30.01.2020
13h15
Atualizada em
04.02.2020
11h11
Atualizada em 04.02.2020 às 11h11

A vida não tem sentido narrativo, pontua uma das canções da série Crazy Ex-Girlfriend. Afirmação que é corroborada por qualquer cinebiografia, quando o desafio é justamente transformar a existência de alguém em uma jornada coerente. O gênero se sustenta pela curiosidade pública em torno da figura a ser retratada e, enquanto tenta estruturar uma vida em três atos  — introdução, confronto e resolução—, pode facilmente trocar o cinematográfico pelo enciclopédico.

Judy: Muito Além do Arco-Íris escapa de ser apenas uma colagem forçada dos eventos da vida de Judy Garland ao optar por um recorte que ameniza suas limitações e prioriza a atuação Renée Zellweger. Pelas dores Garland durante sua turnê no Reino Unido em 1968, longe dos seus dias de glória em Hollywood, essa é uma biografia muito mais sentimental do que factual. 

Considerada um investimento de risco pelos grandes estúdios, Garland foi para Londres na esperança de reerguer sua carreira nos palcos. A história se confunde com a de Zellweger, que depois de ficar sob o os holofotes, com três indicações consecutivas ao Oscar — O Diário de Bridget Jones, Chicago e Cold Mountain (levando a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante pelo último) — passou por produções menos aclamadas até se afastar completamente por seis anos. Quando voltou, em 2016,  foi justamente em uma produção de alma britânica: O Bebê de Bridget Jones, seu terceiro filme da franquia. 

Por esse contexto, Judy passa uma conversa entre duas atrizes que viveram o melhor e o pior de Hollywood. Pelos figurinos de Jany Temime, uma releitura do guarda-roupa de Garland, Zellweger cria uma versão própria do ícone. A sua Judy é idealizada sem se tornar uma imitação. 

O repertório musical da turnê, formado por clássicos dos filmes de Garland, mantém a aura original, mas ganha uma nova camada Cada apresentação constrói a personagem, muito mais do que as reminiscências usadas para explicar os dramas do presente pelo abusos do passado. O roteiro de Tom Edge, baseado na peça de Peter Quilter, pouco faz para apresentar Judy Garland como personagem. Quem não sabe que ela foi uma estrela fabricada pela MGM e estrelou clássicos como O Mágico de Oz (1939) e Agora Seremos Felizes (1944) pouco vai relacionar a jovem Judy (Darci Shaw) com a estrela decadente encarnada por Zellweger, principalmente pela escolha do diretor Rupert Goold de dar aos dois momentos personalidades diferentes. Seus anos de formação hollywoodiana e sua decadência parecem filmes distintos que constantemente interrompem um ao outro. 

Judy: Muito Além do Arco-Íris é o que na temporada de premiações se entende como um “filme de atuação”. O que não deve ser entendido com um demérito. Na maior parte do tempo, o longa parece ciente das suas limitações orçamentárias e narrativas, com o trabalho pontual e sensível de Renée Zellweger sendo a amarra que, se não dá sentido narrativo à vida de Judy Garland, mistura a sua própria história para honrar o legado de uma estrela. 

Nota do Crítico
Bom