Josephine: Brasileira Beth de Araújo faz forte drama familiar com Channing Tatum
Lançado no Festival de Sundance, filme tem ótima história de amadurecimento
Créditos da imagem: Festival de Sundance
Destinado a competir por um lugar no panteão de ótimos filmes sobre perda de inocência e amadurecimento, Josephine – longa-metragem exibido no Festival de Sundance e dirigido pela sino-americana-brasileira Beth de Araújo – se destaca especialmente por capturar e traduzir a bagunça emocional inerente a este processo. Trata-se de um turbilhão de sentimentos e ideias conflitantes que, neste forte drama familiar, é potencializado pela idade da protagonista que precisa encarar essa dura jornada.
Josephine (a novata Mason Reeves, numa daquelas atuações que de “mirim” só tem o nome) tem apenas oito anos de idade quando vai correr e jogar bola com o pai, Damien (Channing Tatum), num domingo de manhã. Ambos vestidos com agasalhos do Liverpool, os dois trocam a sala de casa, onde assistiam ao time perdendo um jogo da Premier League, pelo que devia ser uma simples corrida no parque. Sapeca, Josephine decide se esconder do pai, e no meio dos arbustos, testemunha o impensável. Um homem (Philip Ettinger) encurrala, agride e estupra uma mulher que passava por ali (Syra McCarthy). Confusa pelo que está vendo, a garota fica imóvel, e é eventualmente percebida por vítima e agressor. Felizmente, Damien chega, e após chamar a polícia, o monstro vai para a cadeia.
Acontece que Josephine é a única testemunha do que aconteceu – quando Damien chegou, o homem tinha acabado de subir as calças –, e agora precisa lidar com o medo, curiosidade e choque enquanto a polícia e o advogado representando a vítima pedem aos seus pais que ela coopere com a investigação e até testemunhe num tribunal sobre o ocorrido. Com um forte senso de justiça, mas nem sempre sensível para as emoções do outro, seu pai logo concorda. Já sua mãe ultraprotetora (Gemma Chan como Claire) não tem certeza se isso é uma boa ideia. Expor a menina a mais daquilo é sábio?
A questão é que os dois se preocupam tanto em entender como “resolver” a situação de Josephine, seja com classes de defesa pessoal ou terapia, que eles não percebem o grau do que está acontecendo com a filha, que passa a ser mais agressiva e procura – no comportamento dos pais, na internet e nos gestos de outros adultos – por respostas para as dúvidas que surgiram. Araújo traça essa busca com olhar cuidadoso, encontrando não só na construção de ótimos personagens como também na composição de imagens marcantes o caminho para colocar em tela os dilemas internos que passam a assolar a família.
Duas cenas em particular saltam aos olhos. Numa, Josephine está olhando para cima no quintal de casa e, quando Araújo parte para o contra-campo, vemos que os olhos da menina estão fixos em seus pais; cada um a observa imóvel, em janelas diferentes de um lar que está agora fraturado e dividido. Talvez por ter tido uma mãe fechada, Claire é mais atenciosa, mas nem sempre consegue se comunicar bem com a filha, que apresenta um claro laço com o jeito mais físico e aventureiro do pai. Um dos melhores aspectos do rigor com o qual a diretora pinta este trio é como compreendemos as reações de ambos os pais – mas, se Josephine toma o lado de alguém, é o da própria garota.
O que nos leva à segunda cena. Nela, a família recebe a visita de um detetive e, enquanto ele explica a importância de Josephine para o caso, Araújo faz sua câmera – fixada na mesa de jantar – girar no próprio eixo, enquanto personagens saem e entram do enquadramento e entendemos a luta mental daquela criança para compreender, lógica e emocionalmente, a situação na qual ela se encontra. Uma das tragédias de Josephine é ver como esses pais podem buscar tanto dizer o que é melhor para a filha que eles esquecem de sequer perguntar a ela como ela se sente. Na verdade, quando Damien enfim faz essa pergunta, a resposta é devastadora.
E não poderia ser diferente. Assistir àquele crime força Josephine a lidar com questões como sexo e violência muito antes do que ela devia, e o que desencadeia isso é uma visão terrível. Tanto é que, noutro toque de poesia visual marcante, Josephine insere a figura daquele terrível criminoso como um fantasma que só a personagem-título enxerga; um lembrete constante do perigo que ela agora percebe, e da ansiedade que agora lhe acompanha.
Tudo isso torna poderoso, então, quando Josephine sugere que, apesar de todo esse ruído, crianças não só são mais fortes do que parecem, como muitas vezes – talvez graças à sua disposição mais curiosa sobre o mundo – enxergam o certo e errado com mais clareza do que adultos. Josephine erra e tropeça, assim como seus pais, mas, no processo, ela desenvolve uma certeza poderosa do que deve fazer. Não significa que as coisas serão fáceis, ou que seu coração está leve. Mas, mesmo diante dos horrores do mundo, ela quer lutar.
Crítica escrita em 29 de janeiro como parte de nossa cobertura do Festival de Sundance.