Jojo Rabbit

Créditos da imagem: Fox Searchlight/Divulgação

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Crítica

Jojo Rabbit

Taika Waititi cria história hilária e emotiva na Alemanha nazista, mas ousadia fica só na premissa

Natália Bridi
11.09.2019
23h10
Atualizada em
11.09.2019
23h44
Atualizada em 11.09.2019 às 23h44

Taika Waititi sabe como poucos conectar o seu senso de humor ao coração. Sem medo de ser simplesmente bobo, o diretor e roteirista neozelandês também não esconde a sua sensibilidade, com filmes como Boy (2010), Hunt for the Wilderpeople (2016) e até mesmo Thor: Ragnarok (2017) servindo de prova. Logo, Jojo Rabbit parecia a trama perfeita: um garotinho alemão que tem Hitler como amigo imaginário e muitas lições a aprender sobre a vida. 

Porém, o que parecia um encaixe inquestionável se converte na sua perdição. Com carta branca para fazer o que quiser e profundamente ligado ao projeto — inspirado por uma sugestão de sua mãe — Waititi cria, sim, uma história emotiva e hilária, com a sua versão de Hitler sendo perturbadoramente carismática, mas fecha os olhos para muitas redundâncias e conclusões evidentes. Desde o início, Jojo Rabbit só tem um caminho a seguir, o que transforma os seus 108 minutos em uma longa espera pela conclusão.

O percurso, é claro, tem seus momentos ao sol. A representação de Hitler é uma bem-vinda ironia, com o diretor usando a sua origem Maori e Judaica para debochar ainda mais dos absurdos nazistas. Waititi, no entanto, não concentra as atenções em si, aproveitando o elenco experiente — Scarlett Johansson (Rosie Betzler), Sam Rockwell (Capitão Klenzendorf), Alfie Allen (Finkel), Rebel Wilson (Fraulein Rahm), Stephen Merchant (Capitão Deertz) — assim como o seu núcleo jovem — Thomasin McKenzie (Elsa Korr) e Roman Griffin Davis (Jojo Betzler). Generoso, o roteiro calcula espaços de destaque para todos, o que resulta em boas risadas e momentos de ternura.

Baseado no livro de Christine Leunens, Jojo Rabbit também tem um gracioso quê de livro infantil. O design de produção de Ondrej Lipensky e o figurino de Mayes C. Rubeo, assim como a fotografia de Mihai Malamaire Jr., lembram muito a estética de Wes Anderson, como se essa fosse uma versão nazista e menos hipster de Moonrise Kingdom. A trilha, com algumas versões “alternativas” de clássicos do rock (como Beatles em alemão), arremata a atmosfera cool. Por mais que essa seja uma jornada sem surpresas, a paisagem e as companhias são bastante agradáveis.

Jojo tem uma lição simples para aprender na Alemanha nazista, uma que é facilmente aplicável entre os jovens carentes recrutados pela extrema direita hoje. A ânsia por construir essa mensagem, enquanto também faz uma grande homenagem a mães como a sua (que criam os filhos sozinhas), inibe a capacidade de Waititi escrever certo por linhas tortas. Jojo Rabbit quer criticar a intolerância pela voz dos intolerantes, mas a sua audácia não passa do tema da festa, sem desenvolver de fato alguma reflexão sobre o assunto ou ir além do esperado. 

É como se o processo de amadurecimento de Waititi como cineasta viesse acompanhado de um senso de responsabilidade — a lição é importante e precisa ser compreendida. Ainda disposto a misturar humor com desenvolvimento dramático, o diretor ficou preocupado demais para dar a Jojo Rabbit a ousadia prometida por um filme fofo que tem uma criança nazista como protagonista.

 

Nota do Crítico
Bom