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Crítica

John Wick: Um Novo Dia Para Matar | Crítica

Continuação vai dos filmes mudos à produção chinesa contemporânea para criar seu manifesto de cinema de ação

Marcelo Hessel
14.02.2017
12h56

Embora o jogo de referências de John Wick: Um Novo Dia Para Matar seja feito todo com o cinema mudo - o filme abre com cenas de uma comédia de Buster Keaton, o pôster imita Harold Lloyd e o clímax na sala de espelhos evoca O Circo de Chaplin - é com o cinema chinês de ação que esta continuação tem suas maiores dívidas. Não exatamente com os astros do país (o Operação Dragão de Bruce Lee é outro longa que recicla a sala de espelhos) mas uma dívida com o senso de narrativa movida pelo gesto que prospera nas produções de Hong Kong e que ajudou a moldar os gostos da geração do ator Keanu Reeves e do diretor Chad Stahelski.

O novo John Wick é um filme que poderia ter sido concebido por Soi Cheang ou Johnnie To, dois dos maiores nomes do cinema chinês contemporâneo "autoral" de ação, e talvez não haja elogio maior para essa continuação. Stahelski amplifica os pontos fortes do primeiro filme e felizmente consegue dar uma gravidade e um impacto maior à forma como a ação afeta seu protagonista, sem deixar de lado o caráter lúdico daquele mundo de assassinos. Desta vez, toda Manhattan parece envelopada pelas fantasias de violência, e faz todo sentido que qualquer passante na rua possa se revelar um matador escondido, assim como, nos musicais, qualquer passante na rua pode se revelar um dançarino.

Se o trabalho de design de produção e iluminação era ligeiramente mais discreto no primeiro longa, para criar locais cheios de neon e efeitos que parecessem afetadamente cenográficos mas ainda assim reconhecíveis como boates, ruas e galpões do mundo real, a continuação joga esse pudor pela janela. É uma opção de estilo parecida com a da passagem de The Raid 1 para The Raid 2, que resultou num filme muito mais operístico, e o futurismo em John Wick 2 toma de vez a tela em cenários como a estação de metrô toda clean - mais parecida com os corredores de Resident Evil - Retribuição do que com o metrô de verdade de Manhattan.

A ideia, afinal, é transformar o universo de John Wick em um grande palco, limpo de oportunidades. Nele, Keanu Reeves, um ator que realmente se assemelha a Buster Keaton no contraponto entre a expansividade do corpo e o rosto congelado de expressões, encontra um espaço todo para si - ampliado na profundidade, com oponentes entrando não só pelos lados mas frequentemente pela frente, rente à câmera - não só quando o matador coreografa de antemão a ação mas também nas cenas de duelo contra Common. O rolar na escada, o tiroteio silencioso, a aproximação dos dois dentro do trem... Que belo par cômico-dançante. Ficam aqui os votos para que o terceiro filme traga do Oriente um Tony Jaa, um Zhang Jin ou qualquer ator de The Raid para deixar as coisas ainda melhores.

Falando assim, fica parecendo que John Wick 2 não se preocupa com nada que não seja o formalismo da sua ação, mas a grande lição legada pelo cinema chinês, e que Stahelski absorve exemplarmente, é a noção de que nenhuma linha de diálogo será capaz de substituir o gestual para dar conta do estado físico e emocional de seu personagem principal. Temos aqui um filme que, textualmente, avança na base dos monossílabos e das interjeições: Reeves balança a cabeça, fala pouco, e os coadjuvantes parecem dentro de um filme de James Bond, onde todos sabem o nome do protagonista e não cansam de repeti-lo à exaustão, como se essa repetição pudesse dar corpo a essa presença que às vezes parece imaterial, tal a teatralidade de John Wick. Mas a matéria está lá, sim: embora Reeves mal esbarre nas pessoas quando corre pela escada do metrô, o peso é claro "fora da ação", quando ele sofre para ligar o carro, quando se suja de cimento ou enche as mãos de cinzas na casa queimada.

Num tempo em que os blockbusters de ação americanos são atormentados pelos roteiros hiperexplicativos, que se apoiam em muletas de exposição mesmo quando não tentam tornar tudo mais complicado com suas obsessões de construção de universo, John Wick 2 é o bálsamo de que precisávamos, um mundo encerrado em si onde a fisicalidade basta, e onde o eventual ímpeto de se levar a sério demais e fazer "arte" é sabotado ironicamente com um bom tiroteio dentro dum museu.

Nota do Crítico
Ótimo