Filmes

Crítica

Simples e cronometrado, John Wick 4 redime o blockbuster americano na porrada

Chad Stahelski depura a narrativa dos filmes da série para chegar a uma expressão do essencial

Omelete
5 min de leitura
23.03.2023, às 12H27
ATUALIZADA EM 11.08.2023, ÀS 11H55
ATUALIZADA EM 11.08.2023, ÀS 11H55

É tal a autoridade que os filmes de John Wick conquistaram como a vanguarda do cinemão de ação e porradaria em Hollywood que John Wick 4: Baba Yaga pode se dar ao luxo de esconder o maior astro atual de artes marciais do Ocidente debaixo de uma fat suit à moda Eddie Murphy e Brendan Fraser. Não é só isso, porém, que torna curiosa a cena envolvendo o personagem de Scott Adkins.

Nela, os três assassinos principais do filme - Keanu Reeves agora perseguido por Donnie Yen e Shamier Anderson - se encontram na boate administrada por Adkins, que então os convida para uma rodada de pôquer, mão fechada de cinco cartas. Quem já viu alguma cena de pôquer em qualquer filme americano sabe como funciona: cada personagem revela sua mão, um de cada vez, numa escalada de suspense e pontuação. No caso de John Wick 4, porém, saem logo de cara uma sequência real e uma quadra, e (sem dar muito spoiler aqui) a banca só venceria essa rodada se trapaceasse de maneira absurda.

Se aceitamos a trapaça e o absurdo com um sorriso no rosto, é porque de antemão já sabemos que dobrar as regras é essencialmente a única regra que importa no universo de John Wick. Esse é o acordo que os filmes têm feito e renovado com seu público, e os melhores longas - o segundo capítulo e agora este JW4: Baba Yaga - são aqueles que desdenham de modo mais frontal das regras esperadas do filme urbano realista de perseguição. No longa de 2014, tudo ainda estava sendo tateado; já no terceiro a preocupação em expor e estender a mitologia parecia acima de tudo uma distração.

É quase irônico que, com suas quase três horas de duração, John Wick 4 esteja sendo recebido na mídia como um espetáculo de exageros, porque todas as escolhas que o filme faz, a partir das regras que quebra e recria por sua conveniência, são orientadas pelo essencial. Não há gordura narrativa sobrando, nem distrações; personagens têm seus perfis atribuídos de acordo com as oportunidades de ação que podem oferecer, e tudo se resume a ir de um ponto A para um ponto B sem muito diálogo, sem muita explicação, e do modo mais impactante possível. Os monólogos lentos e afetados se prestam a servir de respiro narrativo e também de criação de expectativa, à moda Sergio Leone: cada pausa dramática na fala de Keanu será compensada a seguir com a ação acelerada e explosiva que já ansiamos. 

Quando John Wick 4 coloca no topo da Torre Eiffel toda uma central telefônica do sindicato de assassinos, aceitamos essa informação como fato do mundo real sem a necessidade de mais explicações porque sabemos que essa Paris é parte de uma realidade simulada construída em cima de muitas e muitas regras desfeitas. Para se aproximar o máximo possível de uma dinâmica dos games de ação (onde aceitamos sem questionar que a realidade está se dobrando à fantasia e a novas leis da física), John Wick vem cada vez mais abolindo tudo o que se espera da narrativa “realista”, a começar pela própria necessidade de diálogos expositivos. Keanu Reeves nunca falou tão pouco e dele, fisicamente, nunca se exigiu tanto quanto neste quarto filme.

Se John Wick 4 parece chegar até nós como a segunda vinda de Cristo, para redimir na porrada os blockbusters contemporâneos de toda a sua obsolescência, é porque seu alvo principal é justamente essa falsa noção de suprema responsabilidade que cineastas têm com a narrativa “realista”, que hoje sufoca o potencial visual e imaginativo do cinema americano. A única coisa realista que precisa se firmar no filme - e sem a qual nada disso se justificaria mesmo - é a fisicalidade das lutas. O impacto precisa ser sentido como algo real. John Wick 4 se beneficia demais do seu elenco treinado em artes marciais (Donnie Yen dispensa comentários e é um prazer rever Adkins e Marko Zaror reunidos num mesmo filme, embora eles não se cruzem), e o trabalho dos dublês em set é mesclado com sucesso ao CGI para criar cenas de ação que parecem ter impacto real segundo as nossas leis da física - ou pelo menos as principais delas, como a da gravidade e a segunda Lei de Newton.

Dizer que são “exageros” os momentos em que John Wick 4 se orienta pelo essencial de uma catarse pictórica e sensorial é simplesmente ignorar que o cinema começou como uma experiência visual antes de se tornar narrativa falada. Pelo visto estávamos um tanto anestesiados com isso, e o trabalho do diretor Chad Stahelski aqui pode se resumir a um chamado de despertar dos sentidos, seja ao som do Justice se misturando com os tiros e nos confundindo na cena da escadaria, seja na perspectiva de cima no plano-sequência do edifício que, pelo 2D, engana com objetos de falsas profundidades.

John Wick 4 não está inventando a roda quando nos propõe um cinema de andamento e ritmo ditados pelo movimento. O que chama a atenção aqui é que, enquanto o seu velho parceiro David Leitch faz em Trem-Bala uma narrativa de digressões, Stahelski depurou a sua ao longo de quatro John Wick para chegar, sim, a uma expressão do essencial que é quase matemática e que funciona como um relógio. Não por acaso o controle do tempo, no elemento da ampulheta (e mais tarde do relógio de pulso) é o que dá a partida na coisa toda. De resto, parece um equívoco chamar de exagerado um filme que faz escolhas quase minimalistas de caracterização e contação de história, como distribuir cicatrizes nos rostos dos personagens só para demarcar que eles já viveram e viram bastante nessa vida.

Convém voltar à cena da Torre Eiffel para dar crédito onde é devido: a personagem da telefonista/radialista que convoca personagens para a perseguição (outra solução simples e imediata que dispensa maiores complicações) é referência direta à radialista que vai colocando gangues no caminho dos Warriors em Selvagens da Noite (1979). Evocar o trabalho do cineasta Walter Hill é muito oportuno porque serve de lembrete que no passado, em filmes como Warriors, como Caçador de Morte (1978) ou Inferno Vermelho (1988), Hollywood fazia muito bem, obrigado, esse tipo de filme de perseguição atravessada pelas luzes plenas de cor e contraste da noite da metrópole. Hill engatinhou para que Stahelski, Keanu Reeves & trupe maravilhosa pudessem correr, saltar, rolar, cair, e se levantar. 

 
Nota do Crítico
Excelente!
John Wick 4: Baba Yaga
John Wick 4
John Wick 4: Baba Yaga
John Wick 4

Ano: 2023

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 169 min

Direção: Chad Stahelski

Roteiro: Michael Finch, Shay Hatten

Elenco: Lance Reddick, Laurence Fishburne, Scott Adkins, Rina Sawayama, Ian McShane, Clancy Brown, Keanu Reeves, Donnie Yen, Shamier Anderson, Bill Skarsgård

Onde assistir:
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