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Crítica

John Lennon: The Last Interview | Filme feito com IA exibe limites da tecnologia

Dirigido por Steven Soderbergh, longa foca na entrevista dada por Lennon horas antes de sua morte

Omelete
4 min de leitura
16.05.2026, às 09H12.
Atualizada em 16.05.2026, ÀS 10H23
John Lennon: The Last Interview

Créditos da imagem: John Lennon: The Last Interview

Se há um único mérito de John Lennon: The Last Interview, é em capturar, através do foco na última entrevista dada pelo ex-Beatle, o que o tornava tão fascinante, cativante e curioso. Dirigido por Steven Soderbergh, o filme usa como base a extensa entrevista do cantor e de sua então esposa Yoko Ono para os apresentadores de uma rádio de São Francisco (EUA) gravada horas antes de ele ser baleado e morto. A conversa, pouco conhecida até mesmo pelos fãs mais dedicados da Beatlemania, oferece um vislumbre único de Lennon; um que sucede onde tantos outros filmes fracassam e nos convence de que, sim, ele é digno da mitologia à sua volta.

É uma gigantesca lástima, então, que Soderbergh faça um trabalho tão fraco com isso. Montado e dirigido de maneira pouquíssimo interessante, John Lennon: The Last Interview tem como seu único outro destaque um ponto negativo: o seu uso frequente de inteligência artificial como artifício para ilustrar alguns dos pensamentos mais ousados de seu assunto principal. Há, claro, imagens de arquivo. Pode-se dizer até que há imagens de arquivo demais, com a quantidade de fotos de John e Yoko acaba se transformando registros valiosos numa avalanche sem forma ou intenção. Há, também, entrevistas com os apresentadores de rádio que conduziram aquela conversa, e apesar de seus insights serem valiosos, Soderbergh pouco utiliza os testemunhos, algo especialmente danoso na reta final do documentário, quando eles tratam da sensação de descobrir sobre a morte de Lennon, e cruzar com seu futuro assassino na rua, no mesmo dia em que falaram com ele.

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Resta, então, a IA. Sua aplicação aqui vem numa série de vídeos curtos do tipo que qualquer pessoa moderadamente online já viu. Humanos cujas expressões e movimentos possuem uma cadência estranha, texturas que imediatamente entregam a natureza do prompt utilizado e, claro, cenas de efeitos especiais que trocam o cuidado humano pelo surrealismo computacional. Soderbergh não tem sido tímido em expressar sua disposição para experimentar esta tecnologia – este é, afinal, o cineasta que melhor trabalhou filmes gravados em iPhone – e para seu crédito, há uma intencionalidade no uso da mesma aqui.

John Lennon: The Last Interview
John Lennon: The Last Interview

As imagens possuem enquadramento, aspiram a significados e conversam com o texto. Em determinado momento, Yoko Ono diz que num futuro sem amor, humanos serão substituídos por robôs. No mesmo momento, o diretor coloca em tela uma recriação digital de pessoas que parece servir como sua tentativa de levantar o lado ruim do que ele está usando.

Em outras palavras, este é um dos usos mais curiosos e direcionados de IA num filme até agora, e dado o pedigree do cineasta e de John Lennon, provavelmente o que mais atrairá olhares. É significativo, então, que o resultado seja tão ruim. Essas vinhetas geradas via inteligência artificial não se revelam tanto ofensivas quanto, francamente, entediantes. Para qualquer olho minimamente treinado para reconhecer os traços de IA (algo que, devido a extensa adoção da tecnologia, pode muito bem significar a maioria das pessoas interessadas neste longa) vai automaticamente se desligar da experiência quando estes trechos surgirem. Colocados lado a lado com registros de dois dos seres humanos mais artisticamente peculiares do Século 20, estes momentos trabalham ativamente contra a produção.

A razão é clara: não importa o quanto Soderbergh tenha considerado como aplicar essa ferramenta, IA é, por essência, algo menos interessante do que a criação genuína de um artista. John Lennon: The Last Interview sugere que, talvez devido à fadiga de sermos expostos a elementos como este diariamente enquanto rolamos nossos feeds, o sucesso ou fracasso de inteligência artificial no campo da arte pode não depender do quão realista é sua simulação de algo real, mas sim em sua capacidade de evocar pensamentos, reações e interesses. Se aqui, aliada ao roqueiro mais emblemático dos últimos 60 anos, a IA tem tão pouco magnetismo, então não há esperança.

John Lennon: The Last Interview
John Lennon: The Last Interview

Claro, IA pode servir para adiantar um elemento digital, limpar uma imagem ou fazer pequenas correções sem que jamais percebamos, mas Soderbergh aposta na tecnologia como digna do holofote. Além de ser um tremendo erro formalista (é imperdoável que o maior ponto de discussão de The Last Interview não seja, bom, John Lennon), esta tentativa traz à mente a ideia do mérito externo. Imagens geradas por IA, afinal, não são genuinamente criadas. Elas surgem como um monstro de Frankenstein, nascido do esforço de um algoritmo de, essencialmente, roubar de artistas o suficiente para produzir um arquivo. Em outras palavras, no fim das contas, nenhuma de suas qualidades é realmente sua.

Por tabela, será que podemos dizer que John Lennon: The Last Interview realmente merece levar crédito por sua apresentação do cantor? Afinal de contas, a entrevista foi feita por radialistas décadas atrás. Claro, o filme vai deixá-la mais acessível e relevante, mas o que ele agrega? Se seu principal componente visual é um fracasso, não seria justo dizer que este é o primeiro filme que seria melhor como um podcast?

Crítica escrita em 16 de maio no Festival de Cannes 2026. John Lennon: The Last Interview não tem previsão de estreia no Brasil.

Nota do Crítico

John Lennon: The Last Interview

John Lennon: The Last Interview

2026
100 min
País: EUA
Direção: Steven Soderbergh
Elenco: John Lennon, Yoko Ono
Onde assistir:
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